Opinião

2026: uma aposta no futuro

O país terá uma chance, em 2026, de surfar uma onda favorável e apostar nas suas grandes potencialidades

Por Marcos Magalhães

O Brasil tem encontro marcado com seu futuro em 2026. Visto de fora, hoje, o país é um objeto de desejo, pelo seu estilo de vida, pela cultura, pelo meio ambiente. Visto de dentro, porém, parece ainda em busca de um caminho em meio ao caos político.

O cinema brasileiro, atual ponta-de-lança da cultura nacional, segue na conquista de reconhecimento global. O filme O Agente Secreto foi indicado ao Globo de Ouro nas categorias de melhor filme de drama e melhor filme de língua não inglesa. E o Globo de Ouro é considerado uma espécie de antessala do Oscar.

A cantora britânica Dua Lipa se divertiu no FlaxFlu, no Maracanã. O americano Bruno Mars lançou um funk em português, que atingiu 134 milhões de ouvintes. As cores brasileiras se espalham por roupas de estilistas em várias partes do mundo.

E, mesmo que a COP de Belém não tenha sido palco de um grande acordo internacional para combater a crise climática, o Brasil fez sua parte como anfitrião. Lançou, ainda, o projeto de um grande fundo para manter de pé as florestas tropicais em todo o mundo.

O Rio de Janeiro recebeu as cúpulas do G-20 e do Brics, ambas no Museu de Arte Moderna. E tem batido recordes de visitas de turistas estrangeiros, ainda que esteja longe de seu potencial – muito em função da frágil segurança pública.

Em um mundo cansado de guerra, o Brasil parece a bola da vez. Os patriotas da extrema-direita ainda gostam de portar bandeiras dos Estados Unidos. Mas as cores brasileiras parecem mais atraentes em tempos de agressividade em Washington.

Existe uma ampla avenida para que o país venha a exercer liderança global na transição energética, na bioeconomia e na agricultura de baixo carbono. Tudo depende de um amplo projeto nacional.

Enquanto isso, o país se perde em conflitos institucionais e patina na definição de suas metas. Até a demolição de leis de proteção ambiental e de proteção aos direitos dos indígenas entram nas estranhas barganhas do Legislativo com os dois outros Poderes.

A definição do cenário político para 2026 precisa ainda atravessar esse denso nevoeiro. Pelo lado da direita, o senador Flávio Bolsonaro se apresenta como pré-candidato a presidente para, logo em seguida, anunciar que sua desistência tem um preço: a anistia ao pai, Jair, detido em uma cela em Brasília.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, é a grande aposta da Faria Lima e da maioria dos que querem ver a esquerda bem longe do poder. Daqui a quatro meses ele terá que esclarecer se aceita a aventura.

Se vier a aceitar, precisará explicar que tipo de relação pretende manter com a família Bolsonaro e que opções políticas adotaria em um possível mandato. Até aqui, o que pedem dele é um governo austero, que detenha o crescimento da dívida pública.

Este é, de fato, um calcanhar de aquiles na terceira gestão de Luiz Inácio Lula da Silva. O atual governo ainda não conseguiu repetir os superávits primários que o próprio Lula buscou em seu primeiro mandato no Palácio do Planalto.

Os demais números, porém, desafiam os pessimistas. A inflação se mantém comportada, o desemprego está baixo. O crescimento não é nenhuma Brastemp, mas inclui novidades como uma neoindustrialização de baixo carbono.

Assim como a direita precisa indicar prioridades além de uma anistia a Bolsonaro e de corte nos gastos públicos, a esquerda deve indicar como manter o ritmo da economia sem acender o pavio da dívida pública.

Entre os ingredientes de uma nova aposta para o futuro está o equilíbrio. Se a atual gestão ainda deve um roteiro de equilíbrio nas contas públicas, os que apostam na reedição do bolsonarismo precisam deixar claro se pretendem repetir as apostas do capitão.

Basta analisar a forma como o Brasil é visto hoje pelo resto do mundo para verificar seus atrativos: uma cultura contagiante, a defesa do meio ambiente e uma política externa que não busca o confronto.

No governo anterior, não custa lembrar, a cultura virou um pequeno apêndice do Ministério do Turismo. O ministro do Meio Ambiente queria “deixar passar a boiada” e destruir a legislação ambiental. E o primeiro ministro de Relações Exteriores se gabava ao ver o Brasil assumir a condição de pária global.

O país terá uma chance, em 2026, de surfar uma onda favorável e apostar nas suas grandes potencialidades. E, quem sabe, ainda de quebra, voltar a ganhar uma Copa do Mundo.

 

Marcos Magalhães. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.

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