Cultura

MEMÓRIAS QUE RESISTEM: CASAS E PRÉDIOS HISTÓRICOS DE RONDONÓPOLIS LUTAM CONTRA O TEMPO

À saída para Poxoréu, antes do anel viário, uma pequena casa de adobe permanece de pé, silenciosa, testemunha de décadas de história. Construída em 1964 pela família Souza, que chegara a Rondonópolis em 1955, a residência foi erguida com barro amassado manualmente, telhas de cerâmica e madeiramento roliço extraído das matas próximas ao córrego Lageadinho.

Foi ali que Militão e Maria criaram seus oito filhos. “Aqui era só cerrado, muito sossego e tranquilidade”, relembra Vanderley Batista de Souza, o primogênito, sorrindo ao recordar os tempos simples da infância. A família morou no local até o fim de 1999. Hoje, quem passa pela avenida Bandeirantes, rumo a Poxoréu, raramente nota a antiga construção, já abandonada, onde tantas histórias foram vividas.

A casa do “seu Militão foi derrubada, aos poucos noiossas memorias vão se perdendoA casa de tijolos da Vila Operária

Casinha de tijolo comum, rua São José Com Dep. Emanoel Pinheiro V. Operária, ainda resiste, não se sabe por quanto tempo

A poucos quilômetros dali, na esquina das ruas São José e Deputado Emanuel Pinheiro, na Vila Operária, outra memória resiste ao abandono. A antiga casa de tijolos à vista do lavrador Joaquim de Souza Brito, que chegou à região do Macaco em 1942, permanece de pé apesar da estrutura comprometida.

Em busca de melhores condições de estudo para os dez filhos, seu Joaquim adquiriu o imóvel — na época pertencente à conhecida “Véia Baiana”, dona Geni. Hoje, o telhado cede, as portas de madeira maciça apodrecem e o mato toma conta. Apesar da deterioração, a construção ainda exibe a força do tempo. Para muitos moradores, deveria ser tombada como patrimônio histórico, antes que o progresso apague mais um capítulo da memória local.

Hoje o prédio que abrigou o Cine Meridional, primeiro cinema da cidade e depois A Panificadora Pão Gostoso, a mais famosa panificadora da sua  época

Do glamour do cinema ao aroma do pão quente

Outro símbolo marcante da história rondonopolitana está na avenida Marechal Rondon, próximo à ponte sobre o rio Vermelho. Poucos percebem a antiga chaminé de tijolos crus, quase engolida pelo mato. Ela pertenceu à Panificadora Pão Gostoso, fundada em 1964 por Juracy Teixeira de Souza, no prédio que antes abrigou o emblemático Cine Meridional.

A padaria foi considerada a mais moderna da cidade. Produzia quindins, broas e diversas guloseimas, encantando moradores de uma Rondonópolis ainda poeirenta, marcada pela presença de garimpeiros, fazendeiros e trabalhadores vindos de várias partes do país.

O prédio também foi, por muitos anos, o principal centro de lazer da cidade. Era para lá que o público corria para assistir a sucessos do cinema mundial, como Spartacus, Tróia, Os Dez Mandamentos, além dos tradicionais faroestes amados pelas crianças.

Patrimônio em risco

As três construções — a casa de adobe, (que já não existe mais) a residência da Vila Operária e o antigo prédio do Cine Meridional — têm em comum a resistência. Permanecem como testemunhas silenciosas da formação de Rondonópolis, mas todas sofrem com o abandono e a ausência de políticas de preservação.

A cada parede que desaba, uma parte da história da cidade se perde. Como lembra o texto, “um povo sem história é um povo sem memória”. Preservar essas estruturas não é apenas manter edificações antigas de pé, mas assegurar que as futuras gerações compreendam a trajetória, a identidade e as raízes que moldaram Rondonópolis.

Da redação

Imagens: JC Garcia

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