Cultura

Setenta vezes sete

Eu tenho uma muriçoca, aliás um carapanã, que pode ser um mosquito, ou melhor, um pernilongo aqui no meu escritório que me lembra muito um texto de um grande amigo e escritor sobre uma mosca. Esse bichinho me incomoda e muito. Fico concentradíssimo aqui produzindo uns textos ou trabalhos, e quando me se espera sinto uma picada na perna e é o danado.
Além do meu sangue ser o seu alimento, ele sobrevoa no meu campo de visão, como se fosse uma aeronave cargueira com dificuldades de alçar, devido ao excesso de carga. Voa lentamente, mas, óbvio, mudando de direção como se fosse a coisa mais simples do mundo, fazendo com que eu me desdobre para combate-lo, com todas as ferramentas e produtos ao meu alcance.
E, o pior, acho que ele se reencarna, porque já o matei inúmeras vezes. Na última taquei veneno em spray, que caiu ao chão, depois joguei mais veneno em cima dele, que deve ter “remorrido”, agora, afogado, e ainda pisei em cima com minha sandália havaianas “paraguaíta”, usando o meu peso de 77 quilos, e ainda, retorci a sandália direita, concentrando o peso nela, para forçar a morte dele por pressão e peso. Peguei-o e enrolei num pedaço de papel higiênico, dobrei e grampeei com o meu predileto grampeador engripado, juntei tudo e embebeci em álcool gel, para que o papel ao secar não deixasse o mosquito reviver, e ainda, coloquei num saco plástico desses de fazer geladinho, dei um nó górdio e depositei no saco preto de lixo, aproveitei e amarrei a boca do saco com nós cegos, colocando-o na lixeira na porta de casa, e esperei o caminhão do lixo passar e vi com os meus próprios olhos e, de alguns vizinhos que estavam espreitando ou curiosos com o barulho que eu fazia na missão acima descrita, porque eu conversava com o mosquito em voz alta, e nalgumas vezes ele me respondia, ou eu mesmo respondia por ele, teatralmente e até em pantomimas.
Acho que estou ficando “meio-beleza”, ou maluco beleza mesmo, porque todo santo dia esse empesteado reaparece no meu escritório e fazemos a mesmice ação para a sua morte, ou outras, ainda não descritas, depois o seu funeral e enterro. Já bati veneno de todas as marcas que encontrei no mercado, que vende produtos de todos os tipos, inclusive muito perto de vencer, já entupi todos os buracos das pareces com creme dental, retirei as coisas que poderiam ser usadas como esconderijos para os insetos, mas ele está me vencendo ou já me venceu. Tenho a mais absoluta certeza, que ele tem mais vidas que um gato, dois gatos, quatorze gatos, setenta e sete gatos, sei lá. Vou desisti e achar uma forma de conviver com ele aqui no meu home office.
Espera um pouco, estou ouvindo um zumbido.

Hermélio Silva, é escritor e poeta

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