Cultura

Do Bororo ao Prodoeste – 52 anos depois. Carmelita Cury

Venho através deste texto em face de matéria publicada sobre a história de Rondonópolis, sabendo ser esta contribuinte de melhores informações no aspecto social, econômico e político, tornando-se porta-voz da cultura.
Contudo, em ocasiões passadas nesta cidade, fui questionada por pessoas sobre a história. Também recentemente uma nova abordagem sobre a matéria editada relacionada “Idade da cidade 100 anos” desconheço tais informações.
Sugiro, contudo, a estudantes ou pessoas que busquem respostas a professores de universidades em seus departamentos de história ou pesquisem em arquivos públicos da capital do estado.
O fato de doação de 2 mil hectares na época, em 1915. Foi a residentes trabalhadores com famílias para construção de estação ferroviária em Rondonópolis, cuja companhia inglesa seria contratada, com direito a explorá-la por 20 anos.
O meu contato é restrito à família, nunca concedi a outros, salvo exceções. Principalmente, quando estou com tratamento de saúde do meu esposo.
Recebi recentemente um convite raro e sucinto de duas figuras importantes em Rondonópolis. O escritor senhor Hermélio Silva e o professor universitário Ivanildo Ferreira. Ambos se identificaram gentis e educados senhores, os quais considerei de suma importância e valor o projeto destes para o dia 10 de dezembro, aniversario de Rondonópolis. É significativo tal incentivo e realização de novas obras e autores.
Diante da proposta, achei por bem retirar-me. Mas, que fosse transferida a oportunidade a outras pessoas, jovens estudantes ou professores. Mas, agradecida fiquei pelo convite.
Os anos se passaram. Oportunidades tiveram para questionar. Não posso oferecer-lhes respostas. Se eu já lhes abri o caminho a uma frase que conheci recentemente: “A grandeza das ações humanas é medida pelas inspirações que as originou”, Louis Pasteur.
Busquei r

espostas nos acervos e manuscritos valiosos em Cuiabá, também nas câmaras legislativas. Faço votos que encontrem e não deparem com o desaparecimento dos escritos e fotos, conforme ocorreu em certos arquivos das irmãs franciscanas em Rondonópolis e também em páginas de jornal.
Houve professores e talvez amigos que criticaram o meu livro: “Do Bororo ao Prodoeste”. Erros gramaticais se corrigem, mas o nome e o desempenho daqueles que no passado atuaram como autênticas testemunhas da história, jamais os apaguei. Ouvi-lhes com carinho e respeito. As críticas não me atingem. Sei do meu papel e seriedade. Fui informada que certos fatos históricos foram copiados do livro, daquela adolescente, sem mencionar a fonte e caberá aos meus filhos no futuro a visão das suas decisões a serem tomadas.
Também não autorizei a publicação de um dos meus documentos que diz “Alistáveis”. Interpretações aleatórias não sustentam teses. Essa palavra não é de cartório ou de eventos aleatórios. Mas de algo politicamente grave.
Uma reunião no passado, convocou e selecionou um pequeno grupo de homens para a defesa e segurança do Estado. E Rondonópolis foi um dos pontos chaves de combate, diante da Coluna de Revoltosos armados, na época em Mato Grosso.
Neste lugar, medidas de proteção foram tomadas pelo cuiabano Francisco Cândido Pereira, esse orientou direcionando as raras famílias com crianças a refugiarem-se no matagal. Também por este homem foi guardado dentro de um saco escondido em mata mais distante, o primeiro livro de registo civil de Rondonópolis.
Escrevi verdades sem apropriar-me de fotos ou documentos. Procurei a origem de certas famílias oriundas de outros estados. “Aí silenciei-me”.
Certa vez em passagem, apresentei uma relação de nomes a um homem de minha total confiança: senhor Aureo Candido Costa, foi um dos documentos que registrei autenticando.
Para fazer jus a história de Rondonópolis, anos depois consegui autorização do 18º GAC, uma sala onde apresentei várias fotos e documentos, os quais foram expostos em lugar seguro, precedido antes de convite, que eu, autora daquela exposição documental enviei as autoridades: Departamento de Cultura, escolas, jornal, universidade e algumas empresas. Sendo por mim proibido o uso de máquinas fotográficas. Assim procedi.
Posterior a fase de ataques de revoltosos, Rondon esteve com um grupo de militares franceses em treinamento nesta região até a Bacia do São Lourenço. Indígenas Bororo atentos observaram, em dado momento, esses povos originários, atuaram em veloz competição numa corrida ao lado de militares franceses dentro do cerrado, cujos troncos de árvores tortuosas exigiam total atenção a aquela prova.
Meu pai, Moyses Cury Mussy, foi a testemunha chave do livro “Do Bororo ao Prodoeste”. Eu em plena adolescência andei por vielas desconhecidas em Cuiabá, na busca daquelas pessoas as quais relatei em meu livro.
Questiono aos senhores, jovens, professores universitários, estudantes de todas as classes, o porquê de certos escritores não foram atrás daqueles personagens citados em meu livro. Havia muito mais coisas e conteúdos a serem registrados e que se perderam depois do falecimento daqueles.
Meu pai, foi procurado por alguns, inclusive pelo engenheiro dr. Sátyiro Pohl Moreira de Castilho, residente, vindo da Região Sul o qual tornou-se prefeito de Rondonópolis, que certa vez questionou e pediu a meu pai que lhe mostrasse os marcos da cidade fincados por Rondon.
Do passado histórico resta a primeira casa (Casario) às margens do rio Vermelho. Esses mantem-se firmes em seus pilares de madeira de lei, de frente a outra casa de fundo que foi demolida no passado. E serviu de depósito de suprimentos, linhas telegráficas, arreios, materiais topográficos, etc.
Entre os alojamentos da comissão pelo Brasil, nessa, Rondon e sua equipe de engenheiros militares com várias especialidades de alto nível profissional, reunidos naquela sala discutiam os alinhamentos e vários pontos de altitudes, longitudes de serras, morros, planícies e planaltos, nascentes e profundida dos rios, larguras e suas vertentes, encostas, correntezas, tipo de solos, ramais, foz, geologia, mineralogia, botânica, fauna, flora. Tudo catalogado, rastreado, com achados arqueológicos, antropológicos, em suas cadernetas.
No bicentenário de Cuiabá, Rondon apresentou-se com sua equipe de engenheiros militares e mapas que ele projetou com portos, rodovias, hidrovias, ferrovias, etc. Essa casa foi a sede do primeiro cartório de registro civil de Rondonópolis, a casa do juiz de paz, do telegrafista, do professor ambulante até a passagem do primeiro médico, que Rondon trouxe do Rio de Janeiro, antiga capital do Brasil.
No momento do conflito mundial ouve a passagem de jovens soldados, cujas armas descansaram na sala dessa casa, repousaram, encheram seus cantis de água, atravessaram o rio Vermelho a caminho do embarque da Segunda Guerra Mundial. Ficou um barril de aço deixado por Rondon, que serviu como depósito de combustível. Hoje esse barril é peça do museu Rosa Bororo. Antes das passagens desses soldados, Rondon enviou por telégrafo um comunicado aos Bororo, por essas antecedências, dezenas de canoas Bororo desceram e subiram, enfileirando-se entre as duas margens do rio Vermelho.
No pátio do atual Casario, centenas de indígenas aglomeraram-se, as mulheres cozinhando com seus papagaios, periquitos e macaquitos. Todos falantes, crianças, famílias e parentes aguardavam a chegada de Rondon. Dentro dessa casa aconteceu a grande reunião. Chefes de tribos e caciques do Alto e Baixo São Lourenço, com seus imensos cocares, colares de poder com dentes de tigres, pinturas em suas faces e corpos. Nesta reunião, tipo Assembleia reservada, não se falava o português, somente a língua Bororo com Rondon, meu pai entendia e falava. Após algumas horas, Rondon saiu ao encontro de todos que o aguardaram alegres felizes e falantes.
Ali nessa morada, primeira do Casario repousava Rondon com meu pai quando vinha a Rondonópolis. Teve suas conversas confidenciais até altas horas da noite, mesmo quase cego era o último a dormir e o primeiro a levantar-se.
Meu pai deu suporte às famílias determinadas por Rondon, para colonizarem Rondonópolis. O surgimento de um propagandista paulista que recebeu extensas terras e deu nome à Paulista, foi inteligente, aproveitou e desenhou outros mapas imaginários. E as vendeu de forma indevida. Rondon já quase cego confiou naquele propagandista, e depois intimou a devolver os valores cobrados. Ao Estado coube o apoio e assistência às famílias assim como a legalização de suas terras.

Carmelita Cury Nunes da Silva
Novembro de 2025.

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