Cultura

O último ato

*Édson Ceretta

 

– 1 –

Meu amor,

Te espero para o nosso último ato.

Será longo e triste, mas perfeito.

Será perigoso e tenso, mas eterno.

Como ator,

Represento emoção à plateia,

Vivo uma angustiante odisseia.

Ali, meu medo eu externo.

 

– 2 –

Vem cá, amor!

Não demores para ver a criação!

Aos teus ouvidos, será como canção,

Nesse doce e fatídico enredo.

Como senhor,

Te espero para bailar nesse palco.

Pois, ó Deus, sei que daqui não escapo

E tampouco, ao mistério, retrocedo.

 

– 3 –

Corre, amor!

Antes de chegar, te sinto por perto.

Vem e sente meu pulso inquieto,

Com batimentos ingovernáveis.

Emotivo ator.

Concateno imagens na cabeça,

E me remexem nas cenas da peça,

Deixando os instintos mais vulneráveis.

 

– 4 –

Revela-te, amor!

Renasce Eneida como prosopopeia,

Na magia de Virgílio e sua epopeia.

Tu sobes as escadas, resplandecente.

Sagaz ator.

Eu pressinto no ar uma ameaça,

Uma sedenta nuvem de desgraça.

No estrado, o mal surge fumegante.

 

– 5 –

Apressa-te, amor!

Como fênix enigmática e formosa,

Trazes finta no sorriso, és cabulosa.

Seduz, como espetáculo ensandecente.

A dor do ator.

Do amargor, cresceu o rumor.

E no estupor, sobreveio a dor.

A esse humano, alma jazente.

 

– 6 –

Chora, amor!

Não aguento mais, meu tronco arde.

Vê, eu já caí, e tu chegaste tarde…

Em tuas mãos, só há um corpo.

Impávido ator.

Olhos abertos, o último suspiro.

Morri, no engodo, por um tiro.

Sobre o terraço, sou só um sopro.

 

– 7 –

Rende-te, amor!

Esse miserável ser, esse espectro,

Agora está mais vivo, mais circunspecto.

Teu pecado vai custar tua perdição.

Embuste e dor.

Ao enganá-lo, óh, bela mortal,

Carregaste para ti todo o mal.

Para sempre, corpo dele, tua prisão.

 

Obs.: Criado, muito provavelmente, em 2018/2019.

*Édson Ceretta – Servidor público federal, romancista, poeta, contista, editor e revisor literário. Autor de três obras, e participação em mais de 50 antologias. Ocupa a cadeira nº 12 da Academia   Rondonopolitana   de   Letras   –   ARL.

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