Cultura

Entre o silêncio e o barulho: uma demonstração de companheirismo e de lealdade

*Percival Lelo Gomes

 

É curiosa, para não dizer trágica, a condição humana. Estamos nós, a dita “espécie dominante”, sempre precisando de infindáveis manuais de instrução: cursos de relações humanas, de oratória polida, workshops de empatia e boas maneiras, tudo para tentar costurar um retalho mínimo de convivência em harmonia. Uma busca incessante pela decência, uma coisa que deveria nos ser inata, mas que se perde nas teias do nosso ego.
Em contraste com tudo isto, eis que a nossa fauna, essa imensa e abençoada companhia, nos oferece uma lição de civilidade sem palavras. É admirável a sua evolução em parceria! Um companheirismo que não exige contrato, uma lealdade que dispensa juramentos, uma gratidão pura e um amor que se revela como um rio de águas inesgotáveis!
Em nosso lar, sempre houve espaço de sobra em nossos corações para os hóspedes de outras espécies. Entre “outros bichos mais ferozes”, como dizia minha saudosa mãe, os felinos deixaram as marcas mais poéticas. Ah, os gatos! Esses mestres do romance sutil. Lembro-me da cadência lenta das piscadas (aqueles lendários “beijos de gato” que desarmam qualquer um), do motor interno do ronronar que acalma a alma, do ritual quase divino de esfregar as bochechas, das cabeçadas e “turrinhas”, e daquele roçar nas pernas que é um poema tátil de pertencimento.
Mas nem sempre o amor precisa de barulho ou toque. E é aqui que mora a mais fascinante das revelações: o silêncio da companhia que fala mais alto do que qualquer discurso.
Tenho em casa um coelho branco que é a própria personificação da paz encarnada. Sem emitir um único som, ele constrói um campo de serenidade ao nosso redor. À mesa, quando recebemos o “pão de cada dia”, ele se senta ao nosso lado, tal qual um monge, e sua presença é um conforto mudo, um aval silencioso à nossa tranquilidade. E olha que ele não se posta ali para pedir nada, afinal, é sempre servido primeiro.
E quando estamos sentados usando o computador ou assistindo tv, ele é a sombra quentinha, “colado” aos nossos pés, como uma espécie de âncora viva.
Houve um momento, porém, que me roubou o fôlego e gravou uma cena para sempre na minha memória. Numa madrugada de vigília, quando acordei para levar meu clamor ao Pai Maior, eis que de repente notei, “ajoelhado” ao meu lado em sua quietude, o coelho! Todo branco, como se vestisse a própria paz, se fazendo dali em diante, o meu mais fiel companheiro inesperado de oração! Isso me mostrou, de certa forma, que a fé e a lealdade não são exclusivas de nenhuma raça.
E, é claro, não há como escrever uma crônica sobre afeto animal sem falar da melodiosa lealdade canina. Os cães talvez sejam a maior demonstração de amor que o mundo conhece. A amizade canina é um pacto selado pela incondicionalidade. Um companheirismo sem falhas e uma expressão de afeto tão pura e sincera que chega a beirar o sagrado.
Diferente das relações humanas, que são complexas e cheias de altos e baixos e, em algumas vezes, até traiçoeiras, o carinho dos cães é desinteressado e inabalável. Por isso, abraço a bela teoria de que a domesticação dos cães foi, na verdade, um processo mútuo,
uma “auto domesticação” de duas vias. Nós e os lobos (ancestrais dos cães) evoluímos juntos, em um acordo de benefício mútuo, onde a maior recompensa foi, e continua sendo, o amor.
Esse manifesto de lambidas e latidos, de ronrons, miados e cabeçadas e a persistência quieta de um coelho, apenas reforça uma dolorosa, mas verdadeira convicção: a de que o animal mais cruel, mais selvagem, mais ingrato e o mais violento que já pisou e ainda continua pisando neste planeta é, sem margem para dúvidas, o ser que ousamos chamar de “humano”. Enquanto os outros animais nos ensinam a amar e nos lembram que é isso que realmente importa, nós, infelizmente, insistimos em nos esquecer!
Dedicado às nossas leais companheiras caninas Tiana e Líli Lilóca (in memorian) e ao nosso querido Bowie, o nosso coelhinho branco.


*Percival Lelo Gomes – Poeta, escritor, contista e produtor cultural de Campo Grande – MS. Percival mantém um Canal no Youtube chamado de “Yougurte Digital”, onde posta vídeos sobre a arte e a cultura, principalmente as de Mato Grosso do Sul. Publiou o livro “O Pantanal em 4 Tempos”.

One thought on “Entre o silêncio e o barulho: uma demonstração de companheirismo e de lealdade

  • Shirley Cruz

    O Aprendizado é infinito, todos os dias é possivel aprender muitas coisas, basta as pessoas ter interesse, aprender e entender. O comportamento de algumas pessoas ainda sera um grande Misterio. Os animais sempre nos ensinam e olha que dizem que tudo que eles fazem agem por instinto e que sao irracionais. Sera? Mas uma coisa é certa o instinto deles em comparação com as atitudes racionais de alguns humanos , sempre sera surpreendente e deixara uma reflexao no Ar.

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