Cultura

A felicidade é o caminho

 * Ivanildo José Ferreira

Fernando Pessoa foi um dos tantos que dedicou alguns de seus versos para identificar o que fosse a felicidade “e a minha alma alegra-se com seu sorriso, um sorriso amplo e humano, como o aplauso de uma multidão”, disse o poeta. Aproximou-se mais e mais da felicidade ao aceitar a monotonia da vida diante da simplicidade dos dias e eventos repetitivos e comuns. Músicos, filósofos, psicólogos e outros também se dedicaram ao tema, entretanto longe de um acordo final, até porque – como a linha do horizonte – ao alcançá-la, outros horizontes se descortinam.

Preocupações com a felicidade move a humanidade, seja como aspiração pessoal, coaching ou objeto de estudos. Muitas definições surgiram, mas novas perguntas se puseram de pé. Uma constatação é que a felicidade é um conceito muito amplo e existem muitas formas de defini-la. Thich Han ou Mahatma Ghandi grafou que “não existe um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho”. De outros filósofos e não menos importante é a sentença de que “a felicidade não é uma estação de chegada; mas um jeito de viajar no trem da vida”.

Pessoas extremamente felizes e pessoas extremamente infelizes, quase sempre partilham situações de vida muito assemelhadas. As primeiras não esperam ou a condicionam. Vivem a felicidade no momento, e com o que tem na ocasião. As últimas condicionam a felicidade a um evento, acontecimento ou mudança que esperam acontecer no futuro, quase sempre algo grandioso. O grande evento não vem, e assim a pessoa vai continuar infeliz. Ainda que o grande evento chegue, a tendência é de ela ficar feliz por alguns meses. Depois, o estado de infelicidade volta a dominar quando a cena fica repetida.

O inverso também pode ocorrer. Pessoas muito felizes, diante de uma perda súbita, tragédia pessoal, familiar ou um luto inesperado, tende a se deprimir, e até se lastimar por um tempo. Da mesma sorte; alguns meses depois elas voltam ao calibre normal de felicidade. Estas incursões não são novas, e os resultados também; e o livro de Jó é um paradigma muito antigo. Ao perder a saúde; a família e os bens, ele fica inconsolável e se lastima. Como o que vale aqui é a moral da história; Yhwh restituiu seus bens, e com galhardias ainda maiores, e Jó voltou ao seu estado normal de felicidade.

Das poesias as filosofias; crenças e culturas a felicidade é tema recorrente, e muitas vezes até se reclama para não ficar indiferente. Entretanto, ao que me parece existem muitas mais pessoas felizes, que aquelas que assim se identificam. Felicidade é produto rarefeito, sentido apenas nas sensibilidades do espírito de quem se deixa perscrutar. Se o espírito está em paz, esta pessoa é feliz; a despeito de patrimônio ou cara-metade pronunciadas. A felicidade está mais na escolha de ser feliz, do que mesmo nas condições materiais da existência humana.

*Ivanildo José Ferreira – É professor aposentado da UFMT e cidadão rondonopolitano.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *