Opinião

Grande dia?

Ao mudar o status das facções para terroristas, Trump dá fôlego para Flávio engrupir o eleitor, mas dificulta o combate ao crime

Por Mary Zaidan

Em julho do ano passado, o deputado autoexilado Eduardo Bolsonaro aplaudiu o tarifaço de 50% contra o Brasil. Considerou “legítima” a ação de Donald Trump a que o parlamentar, cassado meses depois, chamou de “tarifa Moraes”. No Brasil, seu irmão Flávio vacilou entre críticas e apoio. Defendeu que as sanções de Trump em favor de seu pai deveriam ser “individuais”. Em seguida, se arrependeu e apagou o dito. A ordem era arrotar vitória e consolidar a ideia de que os Bolsonaro tinham influência sobre Trump. Quase um ano depois, o senador, pré-candidato à Presidência, saúda como “grande dia” a ação do governo Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. O que pode se configurar como mais uma vitória de pirro.

O movimento desencadeado por Eduardo acabou em uma sucessão de reveses. Cada gesto fortalecia a ideia de que ele agia contra o país, com danos políticos severos para aliados e todo o campo à direita. Definitivamente, perdera o juízo.

A “química” entre Trump e o presidente Lula, a redução e a exclusão de milhares de produtos da lista das taxações e a reunião na Casa Branca, de mais de três horas, foram um twist na história, azedando o humor dos conspiradores contra o Brasil. Agora, nova reviravolta: com a ajuda das organizações criminosas reclassificadas pelo governo americano, eles não só se reanimaram como dobraram as apostas. Mais uma vez, sem prever os riscos de o tiro atingir a culatra.

Não há dúvidas de que Flávio viveu uma semana de ouro. Conseguiu uma foto ao lado de Trump, clicada pouco antes do anúncio oficial de que as facções brasileiras seriam consideradas terroristas, feito pelo secretário de Estado Marco Rubio, com quem o senador esteve no dia anterior. Em entrevistas, passou a impressão de que Trump tinha atendido a uma reivindicação sua quanto ao PCC e o CV.

Bingo! Foto e influência. O suficiente para enterrar a aflição dos dias após a revelação dos diálogos com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o “irmão” que financiou o filme sobre o papai, o mais caro da história do cinema brasileiro.

Mas como cada dia traz a sua agonia, o respiro pode durar pouco.

Não estava na conta de Flávio nem dos seus a retomada das negociações de Vorcaro com a Polícia Federal, reabrindo as chances de delação, com toda a imprevisibilidade que cerca esses acordos. Muito menos as reações contrárias ao enquadramento das facções. Ainda que não cubram toda a gama de consequências, as primeiras análises apontam a possibilidade de novos desgastes para o candidato.

Para além do governo Lula, que incluiu na sua nota oficial a responsabilidade dos Bolsonaro sobre os danos ao país a partir do tarifaço, na sexta-feira todos os agentes econômicos foram unânimes em assegurar que a medida traz prejuízos para ao Brasil. Dos grandes bancos, que temem sanções indiretas mesmo tendo sólidos mecanismos de proteção contra lavagem de dinheiro, à indústria, comércio e investidores. Esses crêem que, por aversão a riscos, o volume de entrada de capital estrangeiro deve cair. Os danos à imagem do país também podem afetar a abertura de novos canais de importação-exportação e o turismo.

Na segurança pública, poucos acreditam na eficácia da classificação das facções como organizações terroristas. Ao contrário. Hoje, tanto a PF como as polícias estaduais têm canais azeitados com quem lida com o crime organizado nos Estados Unidos. “Nós deixaremos de tratar a respeito das facções com a DEA (agência antidrogas americana) e com o FBI e passaremos a lidar com a CIA, que não conversa com ninguém”, diz Mário Sarrubo, ex-secretário nacional de Segurança. O promotor Lincoln Gakiya, maior autoridade do país no combate ao PCC, jurado de morte pela facção, vai na mesma linha: “Troco informações toda a semana com a DEA e com o FBI, e com a transferência para a CIA, isso não vai ocorrer”.

A mudança de status das facções pelos Estados Unidos não contribuiu no combate ao crime em outros países da América Latina. Na Colômbia, que neste domingo realiza eleições, Trump interveio por interesse político sem qualquer escrúpulo, taxando o presidente Gustavo Pietro como chefe de organização terrorista. Fez o mesmo com Nicolás Maduro antes de capturá-lo em Caracas. Depois de envolver os Bolsonaros no teatro do anúncio da decisão sobre o PCC e o CV, assessores tentam convencer que Trump não pretende se meter nas eleições brasileiras. Balela pura.

Flávio deve até conseguir marcar pontos com a trumpice. Sua campanha tem espalhado que em “48 horas o senador fez mais pela segurança pública do que o PT em 20 anos”. O problema aqui é que o mote contraria a história do clã. Quando presidente, seu pai nem ousou mexer no vespeiro do crime organizado no Rio, sua base eleitoral. O próprio candidato tem lá seus rolos com milicianos, um deles, Adriano Nóbrega, líder do “Escritório do Crime”, condecorado pelo Zero Um na prisão. Resta saber se ele conseguirá engrupir o eleitor de que a alteração da nomenclatura feita pelo e para os Estados Unidos mudará algo no cotidiano.

Nas áreas dominadas, PCC e CV tendem a fazer chacota com a história do Tio Sam.

 

Mary Zaidan é jornalista

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