Opinião

Claudiar

Por Jerry Mill

Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira.
-In Quase Sem Querer, by Legião Urbana

Infelizmente, dear reader, a riqueza da língua portuguesa costuma contrastar, na prática, com a pobreza ética, humanística e espiritual da espécie humana que habita esta parte do globo terrestre, abaixo da linha do Equador, chamada por alguns de homo brasilis e por outros de homo sapiens brasiliensis.
Rico em palavras, palavrões e expressões, o nosso idioma é repleto de verbos, que geralmente denotam ação, estado ou fenômeno. Eles podem ser contados aos milhares e tendem a ser classificados de acordo com a sua estrutura (conjugação), papel na oração (transitividade) e função sintática. Daí eles serem chamados irregulares, anômalos, defectivos, abundantes, transitivos, intransitivos, de ligação, significativos, auxiliares e ocultos, por exemplo.

O verbo é tão importante que a própria Bíblia o menciona e ressalta. Confira em João 1:1 (No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.), de acordo com a Bíblia Almeida Revista e Corrigida; e João 1:14 (O Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai), de acordo com o site bible.com/pt. Na verdade, segundo Antonio Benoni Giansante, em seu livro Tudo Sobre Verbos (página 15), o verbo é simplesmente a classe de palavras que mais apresenta flexões ou acidentes gramaticais. E mais: ele é a vida da frase ou da oração.

Afinal, dependendo da pessoa (primeira, segunda ou terceira), do número (singular ou plural), modo (indicativo, subjuntivo ou imperativo), tempo (passado, presente ou futuro – simples ou composto) e voz (ativa, passiva ou reflexiva), bem como das suas formas habituais (infinitivo, gerúndio e particípio), eles podem sofrer várias mudanças, geralmente no seu final, a que chamamos de terminação, de desinência ou até mesmo de rabicho – eu pelo menos já ouvi isso.

Dentre tantos vocábulos que funcionam como verbos nas frases ou orações (ou de verbos que exercem o papel de substantivo ou adjetivo, por exemplo), há aqueles que podem ter múltiplos sentidos (chamados polissêmicos), pois mudam de significado dependendo do complemento ou da preposição que os acompanha (a que chamamos regência). Um exemplo é o do verbo implicar. Sem preposição, ele significa ‘acarretar’ ou ‘ter como consequência’; exemplo: “Uma má gestão implica retrocesso para todos.” Com preposição, significa ‘ter birra’ ou ‘provocar alguém’; exemplo: “Ele vive implicando com os seus opositores.”

Outro grupo possível é aquele que cai na área do que chamamos de neologismos, ou seja, daquelas palavras que, até então, supostamente não existiam, por não terem sido encontradas em qualquer outro registro (falado ou escrito). Foi o caso de caetanear, usado pelo alagoano Djavan na canção Sina (lançada em 1982) para ressaltar as qualidades pessoais e artísticas do amigo e também cantor e compositor (baiano) Caetano Veloso. Mais recentemente, surgiu djavanear, com o sentido de viver, agir ou sentir à moda de Djavan, em clara referência aos seus 50 anos de carreira e consequente turnê.

De modo similar, eu pensei no verbo claudiar, que tem tido sentido mais negativo que positivo nesse um ano e meio de gestão municipal. Para mim, neste exato momento, ele está mais ligado a ‘sextar/sextou’ do que a ‘segundar/segundou’ – ou a ‘curtir’ do que a ‘trabalhar’, ou a ‘falar’ do que a ‘fazer’. Pode ser que o seu significado mude nos possíveis dois anos e meio que ainda restam de comando no Executivo local, em face de não haver reeleição. Isso, no entanto, é pouco provável, apesar do enorme orçamento à disposição para fazer não somente o que é ‘certo’, mas para fazer sobretudo e pelo menos o que é ‘óbvio’. Se não for pedir muito…

Caso contrário, cá e acolá, nós teremos de recorrer a dois antigos ditos populares para, no futuro, tentar colocar o trem dos deslumbrados nos trilhos novamente. Primeiro: “o pior cego é aquele que não quer ver” e, segundo, “o pior tolo é aquele que engana a si mesmo”.

 

Jerry Mill é professor, escritor, sebista e associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis

.Fonte: (*) Jerry Mill

 

Foto: divulgação

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