Cultura

Dinheiro

Existem ficções jurídicas simples para verdadeiramente solucionar problemas complexos. Uma delas é que antes do dinheiro, os mercadores levavam cargas exaustivas de peso ouro (Au) à longas distâncias para realizar negócios de compra e venda, trocando o metal precioso por mercadorias. Isto sem falar da migração do lastro, Au de um estado para o outro. A depender da quantidade de produtos comprados o peso; sobredito, poderia ser bem expressivo. Mutatis mutandis esta inconveniência mercantil de enxugar gelo foi solucionada com um barraco na beira da estrada, onde os comerciantes guardavam o Au, e viajavam leves e confortavelmente apenas com um papel de representação do seu valor em chancela e honradez do dito barraqueiro depositário. Com a leveza da passeriforme andorinha, ou a brancura da red-billed-gul gaivota a planar sobre os azuis dos mares; ou ainda as simbológicas pombinhas, as quais, de tão santas e puras não possuíam bile, para livrá-las dos bafejos pecaminosos da ira. Leveza, candura e simbologias de tempos vetustos temos o dinheiro de hoje.

O dinheiro não é a única ficção. Outras ficções foram criadas para representar ou simbolizar coisas; e a felicidade é uma delas. De tão amplas e verdadeiras essas espécies de reservas de capitais são subscritas em títulos ao portador; são riquezas imobilizadas em fundos pessoais, saldos pouco conferidos, conhecidos ou gabados, mas é certo que são tão e até muito mais poderosos que o dinheiro, quer pelo poder de aceitação, criação de encantos, magias e belezas que somente quem possui tais títulos privilegiados e plenos podem experimentar. São tesouros que a traça não come; a ferrugem não destrói e o fogo não queima. Poucas pessoas tem a real dimensão de seus poderes, ou preferem abrir mão dos tais tesouros herdados de presente, e correm atrás do vento, como disse o filosofo da ilusão; um tal de Eclesiastes. Se não fizerdes ouvidos de mercador e confiares na metodologia de consultar as contas e acessar os saldos ou créditos remanescentes ou perdidos; venha comigo: “bem aventurados e / ou felizes [em traduções distintas: eis a equação:]; felizes os que choram porque serão consolados. Felizes os pobres porque deles é os reinos dos céus; … O tudo o mais, todos e todas já sabem de cor e salteado. Tu te enquadraste em uma delas?        Em fichamento de resumo a lá AJ Severino, mansos…; são qualidades encontradas em quase todos os corações jovens ou velhos, empoderados ou esquecidos, festejados ou silenciados; mas que não perderam a esperança e se conectam com verdades universais; e valores atemporais: solidariedade na pobreza; amizade pura e a importância do perdão. Mais que títulos estas são sapiências milenares, linguagens conhecidas e revisitadas até pelos irracionais; sabe-se hoje que primatas e baleias têm sentimento emocionais e identitários pelos filhos e pares. Aceitação, indulgência, perdão e até um certo credo em si mesmo, a vulgata autoajuda nas redescobertas desses caminhos e senhas de acessos a tesouros que, de tão comuns e triviais, quase ninguém reconhece e – por vias de consequências – os desacreditam. Todos e todas nós temos tesouros sabidos ou não; valorizados ou não; mas temos. Ah! Isto temos!

As bem-aventuranças quando reconhecidas como possibilidades e cultivadas como valores atemporais é diferencial de bem-estar físico, mental e espiritual (imaginários; pensamentos ou sonhos auspiciosos…; cosmogonias…; das pessoas). As bemaventuranças são legítimos títulos de nobreza do caráter e felicidades ao portador; autenticados e garantidos há + de dois mil anos quando o mestre ensinou ao pé da montanha. E não era uma montanha qualquer; era a montanha da vida; na contracorrente dos orgulhos; arrogâncias de uns poucos… Era a montanha da sapiência; daqueles e daquelas que já peregrinaram muito na escassez de tudo e de todos; e conseguiram a duras penas se despir dos orgulhos pessoais e famas instantâneas, imediatas ou momentâneas a qualquer preço; e refugiaram no recôndito da humildade; do equilíbrio e da inteligência e autoridade que somente os sábios possuem.

Verifiquemos nos nossos porões dos defeitos guardados; alforges inúteis e baús de quinquilharias de mágoas e frustrações desprezíveis que só nos pesam nos dias de hoje. Agradeça-os humildemente pelo que representaram, mas deixe-os seguir e servir a outros senhores; tão e até mais importantes do que fomos nós até o dia de hoje. Vamos: procuremos nos nossos alpendres, vazios ou com ilusões infelizes ainda guardadas nos porões mentais. Pode ser que você já seja feliz e nem saiba o quanto; pode despir-se de seus orgulhos pessoais e fantasias de pessoa boa antigamente ferida. Desçamos dos nossos pedestais – se ainda os temos – imaginários dos quais não somos dignos e dignas, e vejamos o quão ricos somos e quão altos são nossos saldos bancários espirituais e de felicidade no dia de hoje. Nossa felicidade é inversamente proporcional às nossas expectativas; e está tão perto de nós mesmos e mesmas e materializada e esquecida numa gaveta qualquer ou numa esquina dos tempos da vida que já é passado; e que nunca mais voltará; mas que eu e você cismamos de guardar cadáveres insepultos de um tempo que já não existe mais. Reconheçamos e demos um fim digno e glorioso ao nosso passado como passado. Sepultemo-nos e abramos as janelas da alma para nossa felicidade que sempre existiu, possa entrar. Como os mercadores, depositemos os pesos dos ouros no banco da vida e

*Ivanildo José Ferreira – É professor aposentado da UFMT e cidadão rondonopolitano.

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