Opinião

De uma lata de leite em pó às conquistas que temos hoje

Ontem entrei na cozinha e observei uma lata de leite em pó sobre a mesa. Ao olhar para aquela lata, recordei os anos da minha infância. Naquela época, leite em pó era coisa que somente os mais ricos podiam comprar. Com o pouco que minha família ganhava, só conseguíamos comprar de vez em quando. Às vezes, o município recebia o produto por meio do programa Aliança para o Progresso, criado durante o governo de John F. Kennedy, presidente dos Estados Unidos.

Minha família era composta por três pessoas: eu, filho único, minha mãe e meu padrasto, conhecido como Pedro Paraguai, excelente carpinteiro e um dos mais afamados fazedores de cercas da região.

Morávamos em uma pequena casa de adobe, alugada pela família, na rua Arnaldo Estevão, logo acima da Praça Brasil. Minha mãe, dona Ilda Garcia, lavava roupas para fora. Em uma pedreira às margens do córrego Arareau, próximo à ponte da rua Fernando Corrêa da Costa, ela e outras lavadeiras esfregavam as roupas e depois as colocavam para quarar, estendidas sobre as pedras, sob o sol.

Enquanto isso, eu e os filhos das outras lavadeiras ficávamos responsáveis por garantir a mistura da semana. Pescávamos piaus e os prateados pacu-peva. Era uma festa para nós. Não demorava muito e já estávamos satisfeitos com a pescaria, de tanto peixe que havia no velho e caudaloso Arareau de outrora.

Hoje, a vida está bem melhor. Temos fartura em nossas mesas e o leite em pó já não nos falta. Temos geladeira cheia, carnes variadas, frutas, verduras e despensa abastecida.

Fiquei a meditar sobre o quanto minha vida mudou daquele tempo para cá, assim como a vida de grande parte dos brasileiros. É lógico que ainda temos muita gente vivendo abaixo da linha da pobreza, mas também é inegável que evoluímos muito em diversos aspectos.

Naquela época, a cidade contava com apenas um hospital. Dentistas eram raros e, quando encontrávamos um, muitas vezes era um dentista prático. Hoje, praticamente em cada esquina encontramos uma clínica odontológica oferecendo os mais variados serviços.

Também avançamos muito na área da saúde. Temos um sistema público abrangente e gratuito, o SUS, que oferece atendimento universal à população. Muitos reclamam do sistema, e certamente existem problemas que precisam ser corrigidos, mas quem viveu aqueles tempos sabe o tamanho da transformação.

Naqueles anos, as doenças eram frequentemente tratadas com remédios caseiros e infusões receitadas por nossas avós. As crianças vinham ao mundo pelas mãos abençoadas das parteiras, mulheres que possuíam conhecimentos transmitidos de geração em geração e que realizavam partos sem os recursos e medicamentos disponíveis atualmente.

Hoje temos o SAMU, serviço gratuito de atendimento de urgência e emergência. Dependendo da gravidade do caso, o atendimento conta com ambulâncias equipadas e equipes treinadas para prestar os primeiros socorros e transportar pacientes. Temos também medicamentos distribuídos gratuitamente pela rede pública, inclusive alguns de alto custo, que seriam praticamente impossíveis de adquirir por famílias de baixa renda.

Nos anos 1950 e 1960, muitas pessoas viviam em verdadeiras palhoças ou em casas de pau a pique. Eu mesmo nasci em uma dessas casas, às margens do rio Juriguinho, próximo à localidade conhecida como Birro, hoje São José do Planalto, no município de Pedra Preta.

Buscávamos água nas nascentes ou nos córregos. Tomávamos banho de caneca e usávamos sabão feito de decoada. Sabonete era artigo de luxo. À noite, a iluminação vinha da luz amarelada das lamparinas.

Calçados eram um luxo ao qual muitas crianças não tinham acesso. O calção feito com pano de saco de açúcar e a camisa de chita xadrez eram o nosso look do dia, muito antes de conhecermos essa palavra.

Apesar de todas as dificuldades, éramos felizes. Brincávamos, pescávamos, corríamos descalços e aprendíamos a valorizar cada pequena conquista.

Hoje, olhando para aquela simples lata de leite em pó sobre a mesa, percebi que ela não era apenas uma lata. Era uma viagem no tempo. Fez-me lembrar de uma infância humilde, mas rica em experiências, amizades e histórias.

Em suma, vivemos hoje uma época de muito mais conforto, tecnologia e oportunidades. Temos muito mais do que nossos pais e avós tiveram. Ainda existem problemas, desigualdades e pessoas passando necessidades, e não podemos ignorá-las. Mas talvez devêssemos também aprender a reconhecer os avanços conquistados. Afinal, quem viveu aqueles tempos sabe o verdadeiro significado de uma lata de leite em pó sobre a mesa.

José Carlos Garcia/editor

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