Do leitor

Marimbondo tatu e sua ogiva

Por Hermélio Silva

Joaquim estava numa pescaria com mais três amigos, na região do rio São Lourenço, em Mato Grosso. Já haviam pegos todos os peixes que imaginavam e inventavam algumas coisas para fazer, pois ainda lhes faltavam dois dias para levantarem acampamento. Daí, ele se embrenhava no mato ou visitava a vizinhança e todo dia tinha novidades para contar, após o jantar e durante a rodada de carteado.

Começou dizendo que seu amigo de pescaria, o Paulinho, que também era brincalhão e contador de piadas, com os seus 1,76 metros de altura, moreno, barba rala e cabelos negros, aparentando 36 anos, havia feito uma pesquisa numa pescaria no passado sobre os marimbondo-tatu. E, que ele havia lhe dito que sempre tinha um marimbondo, ou vespa como queiram, rondando a única porta de entrada e saída da casa, que tinha o formato do animal que lhe emprestava o nome, e essa casa era feita numa árvore, quase sempre acima de três metros de altura, sendo que aquele inseto era o vigia da moradia, e que outro inseto o substituiria em dado momento.

Quando o Paulinho lhe disse que colocaria o dedo na porta fechando-a, quando da troca de guarda, porque o atuante sempre ia chamar aquele que lhe renderia, e isso dava um intervalo para que o Paulinho pudesse fazer aquela façanha. Indagou ao Paulinho do risco de tomar uma ferroada no dedo e passar mal, mas ele lhe disse que tinha o sangue benzido e o corpo fechado, e não correria riscos, mas mesmo assim, resolveu tapar a entrada com barro. Queria ouvir a bagunça que os marimbondos iriam fazer ali presos.

— Dito e feito. – Disse o Joaquim passando a mão nos seus cabelos ondulados e negros para uma arrumação e aproveitava para segurar o queixo, como se estivesse pensando para melhor fazer a sua performance da história do momento.

Paulinho jamais imaginou que poderiam ter outros marimbondos-tatus fora da moradia, e um deles lhe picou a mão, assustado escorregou pelas cascas do pé de angico e esbarrou na casa dos marimbondos.

— Vi o mundo dar voltas e mais voltas aceleradas. Um enxame desse marimbondo temido, grande, na cor negra com um tom azul metalizado voando na minha direção. Só me lembro disso, do formato de ogivas nas partes traseiras daqueles insetos e mais nada. – Afirmou o Joaquim, imitando e olhando para o Paulinho que balançou a cabeça confirmando tudo.

O contador de causos afirmou que o marimbondo-tatu ou vespa é um inseto muito perigoso, tem uma coloração azulada muito bonita. O seu tamanho já assusta. E, o próprio Joaquim, com sua cor branca, de olhos claros chamou o Paulinho para finalizar a estória, porque achava que a versão do mesmo é muito melhor que a sua.

Paulinho se levantou, tomou o lugar do Joaquim na cabeceira da mesa e continuou o conto, crônica ou mentira mesmo.

— Vamos lá! Essa é a mais pura verdade.

Disse que acordou ainda tonto, com algumas pessoas ao seu redor e todos estavam de branco, inclusive o quarto todo era branco. Tudo era branco. Pensou que estava daltônico, porque não queria pensar que estava no céu.

Uma enfermeira apareceu com uma seringa enorme e disse que ia tirar mais sangue para outros exames, e o Paulinho não quis nem olhar a cor do sangue. Não lembrava de nada do que tinha acontecido e quando recebeu alta e foi para sua casa, já tinha alguns amigos esperando ele para avaliarem o seu estado de saúde, porque a coisa foi feia mesmo.

Quando sentiram que ele já estava melhorando resolveram contar a sua façanha. Como todo gozador também é zombado, não se apoquentou quando lhe disseram que colocaram uma rabinha na sua barriga febril, porque o calor irradiado era tanto que resolveram fazer um café para esperar o carro do vizinho, para o levarem ao hospital da cidade mais próxima.

Paulinho olhou para os três amigos e disse:

— Nunca mais quero saber de marimbondo, vespa, abelha, arapuá ou até mesmo jataí sem ferrão.

 

Hermélio Silva – Formado em Marketing, escritor com 28 livros publicados. Membro fundador da Academia Rondonopolitana de Letras – ARL, cadeira nº 06. Membro do Comitê Nacional de Cerimonial Público – CNCP.

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