Internacional

Centenas de milhares de pessoas protestam contra Netanyahu e exigem o fim da guerra, em Israel

Manifestantes temem que os novos combates coloquem em risco a vida dos cativos e exigem cessar-fogo imediato

Por O Globo e agências internacionais

Milhares de israelenses saíram às ruas neste domingo em uma greve geral convocada por famílias de reféns e de vítimas dos ataques de 7 de outubro de 2023. O chamado “dia da paralisação” foi organizado semanas após o grupo terrorista Hamas divulgar vídeos de reféns visivelmente desnutridos — e de Israel anunciar planos para a tomada da Cidade de Gaza. Os manifestantes temem que os novos combates coloquem em risco a vida dos cativos, e exigem, dentre outras coisas, um cessar-fogo imediato e a assinatura de um acordo para libertar os cerca de 50 reféns que ainda estariam no enclave, dos quais cerca de 20 estariam vivos.

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Os protestos ocorreram em dezenas de locais por todo o país, incluindo em frente às casas de políticos, quartéis militares e em rodovias importantes, onde manifestantes foram atingidos por jatos d’água enquanto bloqueavam pistas e acendiam fogueiras que cobriam as estradas de fumaça. A polícia informou ter prendido 32 pessoas durante o protesto nacional — um dos mais intensos desde a comoção provocada pela descoberta dos corpos de seis reféns mortos em Gaza, em setembro passado, publicou a agência americana Associated Press.

— A pressão militar não traz os reféns de volta, só os mata — disse Arbel Yehoud, ex-refém, durante uma manifestação na praça dos reféns em Tel Aviv. — A única forma de trazê-los de volta é por meio de um acordo, todos de uma vez, sem joguinhos.

Policiais israelenses retiram manifestantes que bloqueavam um túnel durante protesto em Jerusalém, em 17 de agosto de 2025, por um acordo que liberte reféns mantidos pelo Hamas — Foto: Menahem Kahana/AFP
Policiais israelenses retiram manifestantes que bloqueavam um túnel durante protesto em Jerusalém, em 17 de agosto de 2025, por um acordo que liberte reféns mantidos pelo Hamas — Foto: Menahem Kahana/AFP
Segundo o Fórum de Famílias de Reféns e Desaparecidos, que organizou a paralisação, manifestantes distribuíram fitas amarelas, símbolo que representa os reféns, nos cruzamentos das rodovias. Embora a maior central sindical de Israel, a Histadrut, tenha optado por não aderir à ação, greves dessa magnitude são relativamente raras no país. Muitos negócios e prefeituras decidiram, de forma independente, aderir à paralisação — movimento que deve se intensificar nos próximos dias, disse Lishay Miran-Lavy, cujo marido segue em cativeiro.

— Estamos fortalecidos pelo apoio do público e, a partir de agora, vamos intensificar a luta até que todos os reféns estejam de volta. Não temos outra escolha — afirmou.

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Além da Rodovia 1, que liga Tel Aviv a Jerusalém, manifestantes bloquearam cruzamentos estratégicos e queimaram pneus em diversas regiões. Os atos também se concentraram em frente às casas de ministros, entre eles o titular da Educação, Yoav Kisch, e os ministros do Desenvolvimento, Yitzhak Wasserlauf, da Proteção Ambiental, Idit Silman e da Ciência, Gila Gamliel — esta última criticada por divulgar um vídeo gerado por inteligência artificial que mostrava Gaza “pacificada” após a suposta emigração voluntária de seus habitantes.

— A ideia de conquistar Gaza e continuar a guerra é uma sentença de morte para os reféns — disse ao Haaretz Sigal Manzuri, que perdeu duas filhas nos ataques de 7 de outubro e protestou em frente à casa de Kisch. — Como mãe, já perdi. Não estou tentando vencer, mas ainda podemos trazer os reféns de volta. Não vamos abrir mão disso.

Reações do governo
Ainda assim, o fim do conflito não parece próximo. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu exige a libertação imediata dos reféns, mas enfrenta pressões conflitantes, assombrado pela possibilidade de motim dentro de sua coalizão governamental. Membros da extrema direita em seu Gabinete afirmam que não apoiarão acordos que permitam ao Hamas permanecer no poder. Da última vez em que Israel concordou com um cessar-fogo que resultou na libertação de reféns, esses mesmos aliados ameaçaram derrubar o governo de Netanyahu.

O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, classificou a paralisação como “uma campanha ruim e prejudicial que serve aos interesses do Hamas, enterra os reféns nos túneis e tenta levar Israel à rendição diante de seus inimigos, colocando em risco sua segurança e seu futuro”. Já Itamar Ben-Gvir, da Segurança Nacional, acusou os manifestantes, em nota, de tentar “enfraquecer Israel”. Assim como Smotrich, ele afirmou que a greve “fortalece o Hamas e atrasa o retorno dos reféns”.

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O deputado Hanoch Milwidsky, do Likud, partido de Netanyahu, e presidente da Comissão de Finanças, afirmou que os protestos são “motins em apoio ao Hamas”. Ele, que atualmente está sob investigação por acusações de estupro, escreveu nas redes sociais que israelenses estavam “queimando o país na tentativa de impedir a destruição” do grupo palestino: “Houve tentativas como essas feitas pelo nosso povo ao longo da história — e superamos todas”.

Enquanto isso, o ministro do Patrimônio, Amichay Eliyahu, foi além, chamando os manifestantes de “degenerados” e acusando a esquerda de “se aproveitar da dor alheia para paralisar o país em tempos de guerra”. Para ele, os israelenses nas ruas estão oferecendo uma “dose de oxigênio” ao Hamas. Ele disse que “as famílias de reféns merecem compaixão”, mas que “cínicos que se aproveitam delas merecem desprezo”.

‘Um bando de hipócritas’
O líder da oposição, Yair Lapid, respondeu às falas dos ministros no X: “Vocês não têm vergonha? Ninguém fortaleceu mais o Hamas do que vocês”, escreveu ele. “Vocês enviaram milhões de dólares em malas. Fortaleceram [o Hamas] por anos. Os reféns foram sequestrados pelo Hamas durante o governo de vocês. A única coisa que realmente vai enfraquecer o Hamas é derrubar este governo perverso e fracassado”.

O presidente israelense, Isaac Herzog, esteve na Praça dos Reféns e dirigiu-se tanto à população quanto à comunidade internacional. Ele afirmou que todo o país “quer os reféns de volta para casa” e que os reféns estão nas mãos de “um inimigo terrível e cruel que faz de tudo para ferir e aterrorizar o povo de Israel”. Em recado à imprensa e aos líderes mundiais, declarou: “Parem de ser um bando de hipócritas”.

— Pressionem, porque quando vocês querem pressionar, sabem como fazer isso. Pressionem e digam ao Hamas: ‘sem acordo, sem nada, até que os libertem’ — declarou.

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Se por um lado Netanyahu insiste em um acordo de reféns que aconteça em uma única fase e com diversas condições obrigatórias, autoridades de alto escalão alertam que essa rigidez pode colocar as vidas dos sequestrados em risco — e mediadores trabalham em um acordo escalonado, com base em concessões que o Hamas poderia fazer. Segundo fontes ouvidas pelo Haaretz, Egito e Catar, que atuam como mediadores nas negociações para um acordo que encerre a guerra, estão se preparando para apresentar um novo esboço de entendimento.

Negociações possíveis
Diplomatas trabalham nos bastidores com a perspectiva de um acordo progressivo, com base no chamado “esboço Witkoff”, que havia sido discutido em rodadas anteriores antes de fracassar no mês passado. No sábado, o Gabinete do premier divulgou uma nota reiterando as condições consideradas inegociáveis por Israel: a libertação de todos os reféns, a desmilitarização total de Gaza, manutenção do controle de segurança israelense sobre o território e substituição do Hamas e da Autoridade Nacional Palestina por uma nova entidade.

Internamente, porém, há sinais de tensão. Um alto funcionário próximo a Netanyahu com conhecimento direto das tratativas afirmou que a imposição dessas exigências pode colocar em risco a vida dos reféns e inviabilizar qualquer chance real de retorno. É por isso que, apesar da postura inflexível no discurso oficial, aliados do premier não descartam totalmente uma mudança de rumo. Ao Canal 12, o assessor Topaz Luk afirmou que Netanyahu “fará tudo para trazer os reféns de volta, como já fez no passado”, e sinalizou que, embora o objetivo ainda seja um acordo amplo, um arranjo parcial não está fora de questão.

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Enquanto isso, representantes palestinos envolvidos nas negociações disseram ao Haaretz que o Hamas tem demonstrado abertura para discutir todas as questões centrais, mas que “Netanyahu ainda não está pronto para nenhum tipo de acordo”. A percepção, segundo essas fontes, é de que Israel vem rejeitando sistematicamente todas as propostas intermediadas por Catar e Egito, e que o governo israelense mantém o foco em uma nova ofensiva militar para retomar o controle da Faixa de Gaza — movimento que, até o momento, não encontrou oposição significativa no plano internacional.

O assessor de Netanyahu, Topaz Luk, não descartou totalmente a possibilidade de que o premier venha a apoiar um acordo parcial. “O primeiro-ministro fará tudo para trazer os reféns de volta, como já fez no passado”, disse Luk durante o programa “Meet the Press”, do Canal 12, no sábado, ao ser questionado sobre essa possibilidade. Ele acrescentou que Netanyahu e os ministros do gabinete acreditam que ainda é possível alcançar um acordo abrangente neste momento.

Na semana passada, Netanyahu revelou publicamente três exigências do Hamas que, segundo ele, tornam qualquer acordo inaceitável para Israel: a libertação de integrantes das forças de elite Nukhba, atualmente presos no Estado judeu; a retirada completa de Israel do Corredor da Filadélfia; e garantias internacionais que impediriam futuras operações militares em Gaza caso não houvesse entendimento sobre o fim da guerra.

Se o Hamas recuar dessas exigências ou flexibilizar sua posição, o cenário pode mudar. O novo esboço que vem sendo elaborado seria uma tentativa de contornar esses impasses e propor uma solução viável, ainda que em fases. Caso isso aconteça, a decisão passará para o governo israelense — e Netanyahu terá de lidar com a pressão crescente da opinião pública e da comunidade internacional.

Expulsão de moradores
Enquanto isso, o Exército de Israel também anunciou neste sábado que omeçará a preparar a expulsão forçada de moradores palestinos da Cidade de Gaza, ao mesmo tempo em que autoridades de saúde informaram que pelo menos 40 pessoas foram mortas nos mais recentes ataques israelenses — entre elas, um bebê que estava em uma tenda e civis que buscavam ajuda humanitária.

Segundo o Exército, moradores de Gaza começariam a receber a partir de domingo tendas e outros itens de abrigo, antes de serem transferidos das zonas de combate para o sul do enclave — uma medida que, segundo os militares, visa “garantir sua segurança”. O comunicado, porém, não informou quando a retirada em massa terá início.

Moradores da Cidade de Gaza relataram nos últimos dias um aumento nos ataques aéreos em áreas residenciais, especialmente nas regiões leste e sul, incluindo o bairro de Zeitoun. O Hamas afirmou que Israel está bombardeando a área com aviões de guerra, artilharia e drones. O porta-voz da Defesa Civil, Mahmud Bassal, alertou que as condições em Zeitoun estão se deteriorando rapidamente, com moradores sem acesso a alimentos ou água em meio aos bombardeios. Segundo ele, cerca de 50 mil pessoas permanecem naquela região, “a maioria sem comida ou água” e privadas do que chamou de “necessidades básicas de vida”.

Hospitais e testemunhas em Gaza relataram que pelo menos 17 pessoas que buscavam ajuda humanitária foram mortas pelas forças israelenses neste domingo, incluindo nove que aguardavam caminhões de ajuda próximos ao corredor de Morag. Hamza Asfour disse estar ao norte do corredor, esperando a chegada de um comboio, quando atiradores israelenses abriram fogo, primeiro para dispersar a multidão, depois com tiros disparados de tanques a centenas de metros de distância. Ele viu duas pessoas baleadas — uma no peito e outra no ombro.

— Ou corro esse risco ou vejo minha família morrer de fome — disse à AP. — Não há outra opção.

No domingo, duas crianças morreram por causas relacionadas à desnutrição em Gaza, elevando para sete o número total de mortes desse tipo nas últimas 24 horas, de acordo com o Ministério da Saúde local, que faz parte do governo administrado pelo Hamas e é composto por profissionais de saúde. A ONU e especialistas independentes consideram o ministério a fonte mais confiável sobre vítimas. Israel contesta os números, mas não fornece seus próprios dados.

A guerra aérea e terrestre de Israel já matou dezenas de milhares de pessoas em Gaza e deslocou a maior parte da população. As Nações Unidas alertam que os níveis de fome e desnutrição em Gaza estão nos mais altos patamares desde o início da guerra.

O ataque do Hamas em 2023 matou cerca de 1,2 mil pessoas em Israel. A ofensiva retaliatória de Israel já matou 61,8 mil pessoas, segundo o Ministério da Saúde, que não especifica quantos eram combatentes ou civis, mas afirma que cerca da metade eram mulheres e crianças.

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