Opinião

Generais no banco dos réus

Fim dos dias de Bolsonaro na política

Por Mirian Guaraciaba 

Vale ver “Argentina, 1985”. Vale rever, se já assistiu. O filme retrata o julgamento de militares argentinos de alta patente, por crimes contra a humanidade, no período mais cruel de perseguição, morte, e tortura no país vizinho. A ditadura argentina durou de 1976 a 1983. Todos foram condenados, resultado de trabalho incansável do promotor Julio Strassera (papel de Ricardo Darin).

Ontem, em Brasília, o clima não foi diferente. Frison na classe politica, entre militares, na imprensa. Começou o julgamento mais importante – e esperado – da nossa história. Cercado por rigoroso esquema de segurança, o ministro do STF Alexandre de Moraes segue como estrela do espetáculo. Para desespero de Bolsonaro, será Xandão quem vai definir seu futuro. Um bom tempo na Papuda, outro longo período em prisão domiciliar (a defesa vai apelar por “motivos de saúde frágil”).

Na leitura do relatório do processo, Bolsonaro foi chamado de “chefe” da organização criminosa. O Brasil o acusa de tentativa de golpe de estado, tramar contra a democracia e de planejar o assassinato de Lula, Alckmin e do próprio Xandão. De ontem até 12/09, o Capitão – sem insignia – e outros sete réus vão encarar estas e outras acusações, todas substancialmente graves – vão pegar 30, 40 anos de cadeia.

Há simbolismo de sobra nesse julgamento. Jamais se viu um militar no banco dos réus por crimes políticos. E lá estavam três generais e um almirante de esquadra, o mais alto posto da Marinha. Há outros mais, patentes inferiores, que não foram incluídos no chamado “núcleo crucial”, mas estão enrolados até o pescoço. Os “kids pretos” – militares do Batalhão de Forças Especiais do Exército.

Xandão deu todos os sinais de que não afrouxará a corda. “Nem por pressão interna, nem pressão externa”. Leia-se Trump, o cheeto satan (apelido recebido nos EUA). Todos os militares pagarão pelos crimes que cometeram. A democracia vencendo mais uma crise, e, por que não, uma quase ruptura democrática?

Argentina, 1985 – Ganhador do Globo de Ouro, em 2023. Indicado ao Oscar como melhor filme em língua estrangeira. Um dos cinco indicados a estatueta como melhor filme do ano. O filme conta o processo ditatorial mais feroz da história argentina. Foi o presidente Raul Alfonsin quem iniciou o período de resgate dos direitos e garantias para os cidadãos de seu país e criou a Comissão Nacional da Verdade e da Memória. O relatório final dos trabalhos da comissão, chamado “Nunca más” levou ao julgamento e à condenação de mais de mil agentes públicos, entre eles militares de alta patente.

 

*Dirigido por Santiago Mitre, está no Prime.

Mirian Guaraciaba é jornalista

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