Política

Histórico ensina: há mais de 30 anos Mato Grosso não elege dois senadores da mesma chapa

Já são mais de 30 anos em que o eleitor mato-grossense faz questão de dividir o poder no Senado, escolhendo representantes de campos políticos distintos

Histórico ensina: há mais de 30 anos Mato Grosso não elege dois senadores da mesma chapa

Em meio às articulações que já movimentam os bastidores da eleição de 2026 em Mato Grosso, os pré-candidatos ao Senado talvez façam bem em revisitar a história. Desde 1994, quando o Estado teve uma eleição com duas vagas ao Senado, nunca uma mesma chapa conseguiu emplacar os dois eleitos. Já são mais de 30 anos em que o eleitor mato-grossense faz questão de dividir o poder no Senado, escolhendo representantes de campos políticos distintos.

Naquela eleição de 1994, venceram Carlos Bezerra (MDB) e Jonas Pinheiro (PFL) — nomes fortes, mas que representavam projetos diferentes na época. O primeiro militante do movimento revolucionário, ligado ao campo da esquerda, enquanto Jonas era ligado ao agronegócio, filiado ao PFL, que era uma herança do Arena, partido dos militares na ditadura.

A lógica se repetiu em 2002, com a reeleição de Jonas Pinheiro e Serys Shlessarenko (PT), estreante na política majoritária. Perfis distintos ideologicamente. Apesar da vitória da aliança PFL-PPS, o PT também conseguiu espaço significativo com a primeira senadora de Mato Grosso. Nesta disputa, saiu derrotado Dante Martins de Oliveira (já falecido), inimigo político do grupo de Jonas, que especula-se nos bastidores, teria até dando uma ajuda para a petista, com a intenção de deixar o ex-governador de fora da política.

Já em 2010, quem levou as duas cadeiras foram Pedro Taques (PDT) e Blairo Maggi (PR) — novamente, dois perfis políticos bastante distintos, com bases e discursos próprios. O primeiro veio do meio jurídico, deixou a procuradoria para entrar na política, com um discurso muito forte de combate ao crime organizado. Já o segundo, grande empresário do agronegócio, já vinha de dois mandatos de governador.

E, por fim, na mais recente disputa com duas vagas, em 2018, os eleitos foram a ex-juíza Selma Arruda (PSL) e o senador Jayme Campos (União), que agora tenta a reeleição. A primeira surfou na onda da Lava Jato, foi chamada de Moro de Saia, e eleita com o discurso antisistema e de combate à corrução, com duras críticas a políticos de carteirinha. No entanto não durou muito, terminou cassada por caixa 2. Já o segundo, por ironia do destino, era um político de carteirinha. Jayme que já foi prefeito e até mesmo senador, voltou ao Senado e agora ensaia uma candidatura à reeleição.

Ou seja: em todas as eleições com duas vagas ao Senado — 1994, 2002, 2010 e 2018 — Mato Grosso nunca escolheu dois nomes da mesma coligação. A divisão de forças tem sido constante, e, ao que tudo indica, intencional.

O cenário para 2026 já começa a ganhar forma e reúne nomes de peso: o governador Mauro Mendes (União Brasil), o ministro da Agricultura Carlos Fávaro (PSD), o deputado federal José Medeiros (PL), a deputada estadual Janaina Riva (MDB), o ex-presidente da Aprosoja Antonio Galvan (DC), o senador Jayme Campos (União) e a senadora Margareth Buzetti (PSD), que deve migrar para o PP, atualmente federado com o União.

Com tantos nomes competitivos e partidos fortes, montar uma chapa unificada que conquiste as duas vagas será um feito inédito. Exigirá mais do que estratégia eleitoral — será preciso estrutura, capilaridade, sintonia entre os candidatos e, acima de tudo, conquistar um eleitorado que historicamente resiste à ideia de concentração de poder.

A eventual composição entre Mauro Mendes e José Medeiros, por exemplo, poderia unir força de governo, estrutura partidária e visibilidade nacional. Mas seria suficiente para romper um padrão de três décadas?

Para muitos analistas, a resposta depende menos da máquina e mais da leitura do eleitor. Por outro lado, é inegável que o fator bolsonarismo ainda é muito forte em Mato Grosso, então, seria possível eleger dois candidatos do campo da direita? Talvez sim, mas estariam eles na mesma chapa?

Outro ponto, apesar de a esquerda hoje não ter tanto espaço no estado, historicamente seus candidatos costumam ter numa disputa ao Senado, uma média ali de uns 20% até 30% dos votos. Num pleito com muitos candidatos, essa concentração pode acabar favorecendo o nome da esquerda, que hoje é representado por Carlos Fávaro (PSD).

O fato é que o histórico mostra que o mato-grossense vem optando pela pluralidade no Senado, alternância de forças e vozes que não caminhem sob o mesmo guarda-chuva. Em outras palavras, se há uma lição a se tirar das urnas passadas, é que a história não apenas ensina — ela costuma se repetir em Mato Grosso. Agora é esperar para saber qual será o desfecho dessa história em 2026.

Leiagora
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

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