Opinião

Infâmia e covardia

Ataque de Israel a café em Gaza mata dezenas. Testemunhas relatam corpos desmembrados no local

Por Tânia Fusco

“Existe um povo que a bandeira empresta

pra cobrir tanta infâmia e covardia”.

Versos emprestados do poema Navio Negreiro de Castro Alves, publicado em 1869 – século 19, quando o Brasil ainda importava da África gente escravizada feito bicho.

Israel admite que “bombardeios imprecisos” mataram civis palestinos nas filas dos centros de distribuição de comida da Fundação Humanitária de Gaza.

Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se eu deliro ou se é verdade

Tanto horror perante os céus… (Castro Alves/Navio Negreiro)

Há quem apoie esta guerra nojenta, sem limites e sem esforço real para o fim.

Interessa o extermínio de palestinos. Crianças e mulheres são alvos preferenciais. Mais de 60 mil palestinos mortos. 40% deles mulheres e crianças. O fim da guerra mobiliza quase ninguém. Bem poucos podem levantar a voz contra os horrores exercidos pelo exército de Israel.

Existe um povo que a bandeira empresta…

Desde o fim do Paraíso – e em séculos de História contada, desenhada, representada, registrada e exibida – homens massacram a ferro, fogo, espada e bomba, gente, bichos, plantas, terra, água e ar.

Sempre existe um povo que a bandeira empresta…

Ainda donos do mundo, homens não são administradores gentis. Muito menos eficientes. O mundo “deles” vai de mal a pior.

Guerras são invenção de homens. Uma atrás da outra. E por muito mais do que trinta dinheiros.

A guerra contra os palestinos é só mais um espetáculo despudorado de horror diário, com bençãos dos ditos fortes e silenciosa submissão de outros tantos.

Nós, os da geração baby boomer, nascidos entre 1946 e 1964, no período pós-Segunda Guerra Mundial, acreditamos que, depois de todo o sabido sobre a barbárie do Hitler e os seus, a inacreditável violência não mais se repetiria. Criamos até um organismo para garantir que aquilo não mais se repetiria – as Nações Unidas.

Aposta errada. Vieram incontidas violências dos países colonizadores sobre os colonizados, arrematadas com a Guerra do Vietnã, que matou 2 milhões de civis e 1,1 milhão de combatentes do Vietnã do Norte e Vietcong, além de 58.000 soldados americanos e 250.000 soldados sul-vietnamitas.

Lá estava o império americano, com a conivência de seus aliados, exercendo sua capacidade de barbarismo – inclusive com milhares de seus jovens soldados.

Sempre existe um povo que a bandeira empresta…

Trump e Netanyahu são monstros recentes da mesma estirpe. Com drones, B-2 ou a velha Napalm, na Palestina, no Irã ou onde seja, lá estão eles, os do “martelo da meia noite”, dizendo: o mundo é nosso. Dele dispomos como bem quisermos.

A História não se repete como farsa.

 

Tânia Fusco é jornalista

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