Curtíssimas

Miria Ramos: a fotógrafa que transforma ruas em memória e resistência

Com o projeto Coisa de Preta, a educadora cuiabana dá protagonismo às mulheres negras e ressignifica os territórios de Cuiabá por meio da imagem e da escuta coletiva.

Em Cuiabá, a educadora e fotógrafa Míria Ramos vem transformando a forma como a cidade se enxerga. Mulher preta, cuiabana e periférica, ela une educação e fotografia para registrar aquilo que muitas vezes passa despercebido: gestos cotidianos, corpos em movimento e territórios que guardam histórias de resistência.

Com mais de dez anos dedicados à educação e desde 2023 voltada à fotografia autoral, Míria encontrou na imagem uma ferramenta de investigação e escuta da cidade. Seu projeto Coisa de Preta, iniciado em 2025 e agora em segunda edição, coloca mulheres negras no centro das narrativas visuais de Cuiabá. Cada ensaio acontece em lugares simbólicos da resistência negra como São Gonçalo Beira Rio, Parque Mãe Bonifácia e Praça da Mandioca — e revela que memória, território e imagem formam um triângulo inseparável.

 

Para Míria, fotografar é mais do que registrar: é criar espaços de reconhecimento e diálogo. As exposições são gratuitas e acompanhadas de rodas de conversa, permitindo que as imagens circulem com contexto e voz. “A fotografia é uma forma de devolver dignidade e visibilidade. Quando uma mulher preta se vê retratada com respeito, ela se reconhece como parte da história da cidade”, afirma. O impacto é duplo: para as participantes, significa valorização; para a cidade, é um convite a rever quem constrói sua memória e patrimônio.

A educadora destaca que sua trajetória é marcada pela escuta e pela construção coletiva. “Eu venho da periferia e sei o quanto nossos territórios são invisibilizados. A fotografia me permite mostrar que há beleza, força e memória nesses espaços. Não é só sobre estética, é sobre política e pertencimento”, diz.

 

 

 

 

Projeto Coisa de Preta

Míria sonha que o Coisa de Preta se torne uma plataforma de longo prazo, ampliando alianças com coletivos, escolas e universidades, e criando acervos pedagógicos e publicações. “Não é um tema que se resolve em uma edição. É um trabalho de documentar e celebrar narrativas que a cidade historicamente não registrou”, reforça.

Ela também deixa uma mensagem para outras mulheres pretas que desejam ocupar espaços culturais

“Ocupar não é pedir licença; é exercer direito. Procurem rede, façam alianças, insistam na autoria e no próprio olhar. E não caminhem sozinhas: quando uma mulher preta ocupa, ela abre passagem para outras. O caminho se faz junto.”

 

Leiagora

Foto:divulgação

 

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