Polícia

MT: 2° estado da Região Centro-Oeste com maior número de desaparecidos; quantia é impulsionada por facções

Anuário aponta subnotificação de mortes violentas, camufladas por “desaparecimentos”

Mato Grosso foi a segunda unidade federativa da Região Centro-Oeste com maior índice de desaparecimentos ao longo de 2024, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, com uma taxa de 59,2 casos por 100 mil habitantes, ficando atrás apenas do Distrito Federal, que registrou 72,6. O próprio estudo aponta que muitas mortes violentas intencionais, embora apresentem aparente queda, estão sendo subnotificadas em razão da atuação de facções criminosas, que executam vítimas e ocultam os corpos em cemitérios clandestinos, “camuflando” também os dados estatísticos.

As amostras levam em consideração o número de desaparecidos a cada 100 mil habitantes por unidade federativa, o que resulta no cálculo de uma taxa de proeminência na média nacional.

Com base no cenário regional, ao todo foram registrados 8.557 casos de desaparecimentos, divididos entre Distrito Federal, o líder do Centro-Oeste, com taxa de 72,6; seguido de Mato Grosso, com 59,2; em terceiro na posição o estado de Goiás, com 51,5, e, por último, Mato Grosso do Sul, com taxa de 11,7.

Na comparação nacional, Mato Grosso ocupa a sexta posição no ranking, com o registro de 2.271 desaparecimentos, das quais 966 foram encontradas. Apesar disso, o número de desaparecidos sofreu queda, ficando 7,5% menor do que o registrado pelo levantamento de 2023, que correspondeu a 2.419 casos. Em todo o Brasil, 81.873 pessoas desaparecerem no ano passado.

Ocorre que, segundo o estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o crescimento dos desaparecimentos no Brasil coincide com o período em que se observa redução das mortes violentas intencionais, que apresentou queda de 5,4% no Brasil, em relação ao levantamento anterior. Todavia, ao mesmo tempo, observa-se também um movimento de expansão de organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

Conforme alerta o estudo, essa dinâmica sugere que parte das execuções pode estar subnotificada pela ocultação de cadáveres em cemitérios clandestinos, prática recorrente entre organizações criminosas como forma de eliminar rivais sem chamar atenção do Estado.

A lógica “sem corpo, sem crime” transforma essas vítimas em meras estatísticas de desaparecidos — uma categoria que, por não configurar crime a priori, frequentemente não gera investigação ou responsabilização. A ausência de tipificação penal específica para o desaparecimento forçado agrava esse cenário, dificultando a resposta institucional.

Em razão do cenário de guerra entre as facções, que é perceptível em várias regiões de Mato Grosso, é possível identificar que boa parte dos corpos alvos de execução tem como destino final os cemitérios clandestinos.

Cemitérios Clandestinos 

Neste primeiro semestre de 2025, diversos cemitérios clandestinos foram descobertos em várias regiões do Estado. Somado a isso, há também diversos registros de corpos desovados às margens de BRs e estradas rurais e, ainda, muitos casos de cadáveres atirados em rios.

Só em janeiro, a Delegacia de Lucas do Rio Verde (332 km de Cuiabá) localizou, na zona rural do município, um cemitério clandestino com corpos de 11 vítimas enterrados. Até o momento, três pessoas foram presas por envolvimento nos crimes.

Na Capital, a vítima MC La Brysa ficou desaparecida por uma semana, até ter o corpo encontrado às margens do rio Cuiabá, fato ocorrido também em janeiro. O cadáver estava amarrado a baldes de tinta cheios de concreto e apresentava sinais de execução, supostamente por dívidas de droga.

No mês seguinte, outros oito corpos em avançado estado de decomposição foram descobertos por policiais. Eles estavam enterrados em área isolada de Rondonópolis (212 km de Cuiabá).

Em março, foram encontrados também quatro corpos em região de mata do bairro Costa Verde, em Várzea Grande. Até o momento, foram identificadas duas vítimas, Diego de Sales Santos, 22 anos, e Mefibozete Pereira da Solidade, 25 anos, maranhenses que estavam desaparecidos e foram mortos por membros do Comando Vermelho, que acreditavam que eles integravam uma facção criminosa rival.

Na ocasião, outros dois corpos também foram encontrados na cidade, no bairro Pirineu, suspeitando se tratar de pai e filho, Ryan Alves, 18 anos, e Ricardo Alves, 41 anos, que também desapareceram no município, em dezembro de 2024.

Já em maio, mais duas ossadas foram encontradas na zona rural de Peixoto de Azevedo (673 km de Cuiabá).

Ainda com base em dados apresentados no levantamento, a pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Datafolha, sobre Violência e Segurança Pública, apontou que, entre julho de 2023 e junho de 2024, 8% da população brasileira com 16 anos de idade ou mais, em média, declarou que tinha conhecimento da existência de “cemitérios clandestinos” nas cidades em que moravam. Isso equivalia, em 2024, a cerca de 14,2 milhões de pessoas.

Leiagora
Foto: reprodução/PJC-MT

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