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‘Não adianta não ser machista, tem que ser anti-machista’: promotora alerta para cultura da violência de gênero

Os dados mostram que regiões como Sinop, Lucas do Rio Verde e Sorriso se destacam entre as que mais registraram casos em 2025, juntamente com Cuiabá e Várzea Grande

“Não adianta você não ser machista, você tem que ser anti-machista.” A frase, dita de maneira firme e sem rodeios é da promotora Claire Vogel Dutra, coordenadora do Núcleo das Promotorias de Justiça Especializadas no Enfrentamento da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher em Cuiabá, durante entrevista ao Agora Pod.

A entrevistada destacou durante o bate-papo a normalização da violência contra a mulher impulsionada pela diversidade cultural em Mato Grosso, estado que, proporcionalmente, mais mata mulheres no Brasil. A promotora explica que não basta rejeitar atitudes machistas no âmbito pessoal. É preciso agir diante da violência, interromper ciclos e denunciar.

“Infelizmente a gente vê que há homens que presenciam situações de violência e não fazem nada, e aquilo ali é normalizado. As pessoas veem um homem agredindo uma mulher na rua ou em algum estabelecimento e só saem de perto, fingem que não está acontecendo nada, como se eles tivessem que se resolver entre si”, lamenta.

Ela reforça que o velho ditado “em briga de marido e mulher não se mete a colher” precisa ser abandonado de uma vez por todas: “Tem que meter a colher sim. Tem que ir lá e tem que denunciar”.

Os dados mostram que regiões como Sinop, Lucas do Rio Verde e Sorriso se destacam entre as que mais registraram casos em 2025, juntamente com Cuiabá e Várzea Grande. Para a promotora, a diversidade cultural nessas áreas contribuem para o machismo e o menosprezo à mulher.

Sinop está em primeiro lugar com 5 casos, ficando atrás Cuiabá com 4, Várzea Grande e Lucas do Rio Verde 3 e Sorriso com dois casos.

“O estado recebe pessoas de várias origens. Ao mesmo tempo que a gente tem pessoas vindas da região Sul, também há um fluxo muito grande de trabalhadores do Nordeste, principalmente por conta das fazendas e das empresas do agro”, descreve.

Essa mistura de culturas, segundo ela, traz consigo diferentes reproduções de machismo, algumas mais naturalizadas do que outras. “É uma diversidade que, somada a uma cultura muito machista, em que o homem ainda se sente proprietário da mulher, se torna um fator de risco”.

Relacionamentos marcados por controle e ciúme excessivo são, conforme alerta Claire, porta de entrada para agressões mais graves. Embora todos os feminicídios chamem atenção, muitos outros casos seguem invisibilizados: as tentativas.

“Tem situações em que a vítima só não morreu porque foi salva, foi levada ao hospital ou conseguiu fugir. Se todas essas tentativas virassem feminicídios, o que muitas vezes é a intenção do agressor, os números seriam ainda mais alarmantes”, ressalta.

Ano mais violento em cinco anos

A escalada da violência contra mulheres no estado ganhou contornos ainda mais preocupantes em 2025. Na segunda semana de novembro, o número de feminicídios já havia ultrapassado o total registrado em 2024. Já são 50 feminicidio, tornando este o ano mais letal para a população feminina de Mato Grosso nos últimos cinco anos. Os dados são do Observatório Caliandra, do Ministério Público Estadual.

E o cenário local acompanha uma estatística nacional que volta a colocar Mato Grosso como o estado mais perigoso do país para mulheres: a taxa de 2,5 mortes por 100 mil habitantes, a mais alta entre todas as federações, foi confirmada pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em julho de 2025.

Claire reforça que a persistência desses números está diretamente ligada à naturalização da violência e ao machismo estrutural: “A gente percebe que Mato Grosso ainda é um estado muito machista. Isso é muito claro pelos dados do observatório”.

Veja a entrevista completa abaixo:

Leiagora
Foto: Agora Pod

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