Opinião

O genocídio em Gaza abrandou, mas não acabou

 

O falso compasso de espera em Gaza permitiu a Israel acelerar a destruição da Cisjordânia

Por Amílcar Correia

 

Não esqueçam estes nomes. Al-Muntasir Billah Abdullah, de 26 anos, e Yousef Asasa, de 37, foram executados, na semana passada, por militares israelitas, em Jenin, na Cisjordânia. Estavam desarmados, foram pontapeados, as suas mortes foram filmadas e o vídeo da execução sumária termina com a escavadora de um trator a destruir uma persiana metálica, que desaba sobre os seus corpos.

O exército israelita disse o esperado: “Eram indivíduos afiliados a redes de terror” e o que se passou vai ser alvo de investigação. Mata-se primeiro, finge-se que se investiga e ilibam-se a seguir os assassinos e os crimes de guerra. O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, comemorou: “Os terroristas devem morrer!” Qualquer semelhança entre esta suposta “ofensiva contra o terrorista” e um Estado de direito não passa de uma encenação. Grupos israelitas de direitos humanos garantem que as práticas de tortura têm aumentado nas prisões e que a fome é uma delas. Os palestinianos são as vítimas perfeitas: são muçulmanos, árabes e terroristas sem excepção.

Os ataques de colonos e do exército na Cisjordânia regista uma das fases mais violentas de sempre, com mais de mil mortos desde Outubro de 2023, em simultâneo com a destruição das povoações, “convertendo-as em cidades-fantasmas”, na expressão de Roland Friedrich, diretor de operações da UNRWA, a agência da ONU para os refugiados na Palestina.

Enquanto o genocídio avança mais lentamente em Gaza, Israel apressa-se a demolir as casas de palestinianos na Cisjordânia. Os tratores do exército, modelos D9, fabricados pela Caterpillar, nos EUA, servem para muitas tarefas. Na Palestina, os Caterpillar são uma arma de guerra ao serviço do expansionismo dos colonos.

Infelizmente, a Amnistia Internacional tem todas as razões para afirmar que o cessar-fogo “corre o risco de criar uma ilusão perigosa de que a vida em Gaza está a voltar ao normal”, mas a verdade é que não está. O falso compasso de espera em Gaza, permitido pela simulação de um processo de paz, permitiu a Israel acelerar a destruição da Cisjordânia e a barbárie do Exército e dos colonos, sem se desviar da intenção de anexar o território e aniquilar a população.

Infelizmente, a secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard, tem tanta razão quanto Roland Friedrich quando diz que, embora as forças israelitas “tenham reduzido a escala dos seus ataques, e permitido a entrada de quantidades limitadas de ajuda humanitária em Gaza, o mundo não deve deixar-se enganar. O genocídio não acabou. Não, não acabou. Todos os dias morrem civis em Gaza, ora porque passaram uma inescrutável linha amarela, ora porque merecem ser alvejados. Nada mais simples. Desde 7 de Outubro de 2023 que dois ministros israelitas repetem sem dignidade que os palestinianos são como animais e que a Palestina não existe. Não era de esperar outra reação que não o negacionismo e a farsa: “Israel está a defender-se” e a agir em “total conformidade com o direito internacional”.

Afinal, estamos a falar do derradeiro colonialismo, muito bem aceite nas chancelarias europeias e na Sala Oval, que já deve ter-se tornado quadrada. A reação mais simbólica é a do chanceler alemão. Friedrich Merz foi lesto a levantar as restrições de venda de armamento a Israel, justificando-as com a estabilidade da situação em Gaza. Enquanto isso, Donald Trump aposta numa paz falsa na Ucrânia, que não é mais do que uma cedência à parte mais forte, com o pensamento nos dividendos, tal como em Gaza.

É inegável que as flotilhas a caminho de Gaza coincidiram com um momento mais intenso de indignação cívica e que o anúncio do suposto plano de paz, sufragado pelos países árabes, no Egito, para glória narcisista do Presidente dos EUA, teve o efeito oposto. Como diz Rafik Hodzic, escritor e ex-porta-voz do Tribunal Penal Internacional para a ex-Yuguslávia, a investigação, em Itália, sobre os italianos que embarcaram nos safaris assassinos de Sarajevo, “não se refere apenas ao passado da Bósnia. É um alerta sobre o presente”. Uma investigação do The Guardian, há dois meses, revelou que uma família de Gaza foi morta por atiradores vindos de Chicago e de Munique, atraídos pela mesma crueldade do abate de civis.

No dia 25 de outubro, o escritor egípcio Omar El Akkad publicou este post: “Um dia, quando for seguro, quando não houver consequências pessoais por chamar as coisas pelos nomes, quando for demasiado tarde para responsabilizar seja quem for, sempre teremos sido contra isto.” Alguém duvida que Omar tenha razão? Será demasiado tarde para todas as vítimas.

 

(Transcrito do PÚBLICO)

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *