Opinião

O golpe continuado

A tentativa não ficou na intentona de oito de janeiro. Ela persiste

Por André Gustavo Stumpf

 

A audaciosa e inacreditável nota divulgada pela embaixada dos Estados Unidos, em Brasília, demonstra que o governo de Washington está decidido a interferir na política interna brasileira. De repente, o assunto Bolsonaro virou tema relevante para Donald Trump. A nota da embaixada, que no momento está sem embaixador, afirma que está monitorando todos as pessoas próximas a Alexandre Moraes. “O ministro Moraes é o principal arquiteto da censura e perseguição contra Bolsonaro e seus apoiadores. Suas flagrantes violações de direitos humanos resultaram em sanções pela Lei Magnitsky, determinadas pelo presidente Trump”, afirma a nota oficial.

Nem em 1964 ocorreu algo semelhante. Os norte-americanos eram mais discretos, sutis, e faziam política de outra maneira, pelo menos no Brasil. Antes, na longa e minuciosa negociação para que o Brasil cedesse as bases do norte e nordeste momento anterior à Segunda Guerra Mundial demonstra uma relação completamente diferente. Respeitosa de parte a parte, mesmo quando havia desconfiança de que alguns ministros de Getúlio Vargas eram favoráveis aos nazistas. Apesar de tudo, a negociação foi concluída com êxito. Natal recebeu a maior base aeronaval dos Estados Unidos fora de seu território, antes da invasão da Europa. E o Brasil recebeu a tecnologia para construir a siderúrgica de Volta Redonda, mãe da industrialização nacional.

Diante deste cenário, restam poucas alternativas ao governo brasileiro. Gritar, espernear e protestar na Organização Mundial do Comércio rende algumas manchetes de jornal, mas não muda em nada a situação. O governo de Washington não dá a menor atenção a OMC, órgão multilateral criado para arbitrar conflitos comerciais. Trump fez tabula rasa dos acordos comerciais. Ele impõe as tarifas a seu bel prazer. Atira para rodos os lados. Talvez resida aí sua fraqueza. Não é inteligente abrir várias frentes de combate ao mesmo tempo. Resta ao pessoal do Terceiro Mundo, sem o poder bélico para contrapor ao irmão do norte, conversar. É o que o presidente Lula e o Primeiro Ministro da Índia, Narendra Modi fizeram sesta semana.

Conversaram durante uma hora por telefone e chegaram a alguns pontos interessantes. Decidiram elevar o volume de comércio entre os dois países ao nível de US$ 20 bilhões até 2030. O vice-presidente Geraldo Alckmin deverá ir a Índia em outubro assinar documentos e tratados para melhorar a relação comercial entre os dois gigantes. A Índia é o país mais populoso do mundo, ultrapassou a China, e também ostenta notável índice de crescimento anual de sua economia, acima dos seis por cento. Precisa de alimentos. Com a China, as relações brasileiras estão vivendo momento especialmente favorável. A melhor solução contra os ataques de Trump parece ser um trabalho conjunto dos países dos BRICS, que podem até chegar perto de realizar transações sem o dólar, o que a China já experimenta no seu círculo de relações comerciais na Ásia.

O Brasil está em pleno mar, em momento tempestuoso. Os norte-americanos, e em especial este grupo que está no poder em Washington, tem meios para fomentar rebeliões setoriais capazes de provocar grandes danos à democracia nacional. A recente rebelião ocorrida no Congresso Nacional é uma pequena demonstração da capacidade de mobilização que os donos do dinheiro dispõem. Eles possuem a capacidade de gerar agrados para deputados, senadores, ministros e outras autoridades, além dos militares que sempre mantiveram boas relações com Washington. Os riscos são imensos. A insistência em interferir na política interna brasileira indica que o golpe de estado passou a ser um crime continuado. A tentativa não ficou na intentona de oito de janeiro. Ela persiste. Seus agentes continuam a fazer gestões aqui e no exterior para derrubar o governo e instalar a ditadura tantas vezes imaginada e verbalizada por Jair Bolsonaro. O governo norte-americano defende um político que é abertamente favorável a tortura e a ditadura. Nada parecido com o americano que defendia as liberdades individuais e a democracia.

O mundo mudou. Os Estados Unidos estão irreconhecíveis segundo os antigos parâmetros. O novo poder ao norte brigou com os vizinhos, México e Canadá, não conseguiu terminar a guerra da Ucrânia, nem conter as barbaridades do governo de Israel. Não atingiu a China, nem entregou o que prometeu na economia. Até agora se perdeu na retórica na imposição aleatória de tarifas de importação de produtos para o mercado norte-americano. O consumidor vai pagar a conta e a inflação deverá se elevar. O Brasil vai viver sob esta pressão intensa até as eleições de 2026. O governo norte-americano que foi capaz de divulgar esta nota absurda, não deverá se conter na tentativa de colocar seu apaniguado no poder. O golpe continua. Washington quer um país submisso.

 

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