Política

O nosso Brasil entre o Supremo e a BOVESPA

Toga x Câmbio

Por Roberto Caminha Filho

 

No Brasil, a decisão do SUPREMO, não para só no Diário da Justiça: respinga na Bovespa, no câmbio e até no carrinho do supermercado. A tão esperada condenação do Jair pelo Supremo seria mais um capítulo em que toga e mercado disputam quem dita o preço do baião de dois.

Em terras tropicais, onde a economia dança conforme a política desafina, o Brasil tem um fenômeno peculiar: aqui, juiz de toga mexe mais com o câmbio do que os presidentes eleitos para o Banco Central. O Copom sua a camisa para segurar a taxa Selic, mas basta um ministro do Supremo pigarrear, em plenário, para o dólar enlouquecer. Parece piada de botequim, mas não é. É o retrato do país onde a pauta econômica cabe, inteirinha, numa sentença judicial.

A possível condenação de Jair Bolsonaro pelo STF é a bola da vez. E não se trata apenas de punir, o punido ex-presidente — trata-se de descobrir até onde vai a paciência do mercado e a criatividade dos analistas, que vivem para inventar índices: “Ibovespa da Toga”, “Risco Supremo”.

No pregão, cada frase do Supremo vira luz no gráfico. Se a pena for dura, o investidor estrangeiro suspira: “oh! democracia forte!, instituições firmes!”. Mas o investidor local, acostumado a sofrer, corre para o dólar como quem busca shopping fresquinho, em verão amazônico. Resultado: o câmbio se agita, a inflação ameaça, e o brasileiro se pergunta por que a decisão sobre o destino de um político bate direto no preço da pizza da sexta-feira.

Não é de hoje que o mercado se comporta como novela. Só que a novela do Supremo tem capítulos intermináveis, ministros com frases de efeito e audiências que mais parecem série da Netflix. Cada voto vira “dica estraga prazer”: “quem condena, quem absolve, quem pede vista”. Enquanto isso, o feijão sobe, a gasolina esnoba e a Bovespa vive de susto a arrepios. Os Pastores Malafaia e Valdomiro não param de orar pelo Brasil, já com poucas esperanças.

O julgamento não divide apenas esquerda e direita, mas também “comprados” e “vendidos” no mercado. De um lado, os otimistas que acham que a condenação fortalece as instituições e pode abrir espaço para estabilidade política. Do outro, os pessimistas que veem caos, protestos e obstrução no Congresso. O pobre investidor de varejo, que só queria ganhar um trocado em ações, acaba perdido no meio dessa briga: compra no boato, vende no fato, e no fim sobra-lhe apenas o que, um dia, já foi barato.

Enquanto isso, o consumidor comum, alheio ao sobe e desce da Bovespa, percebe o impacto no supermercado. A toga que decide sobre Bolsonaro também decide, indiretamente, se o arroz vai custar R$ 6 ou R$ 8 o quilo. E se o pãozinho da padaria subir, não adianta culpar trigo, adubado com pólvora, da Ucrânia: a culpa, segundo a lógica popular, será do Supremo.

Para o investidor estrangeiro, o Brasil já é conhecido como o país do “risco político crônico”. A cada quatro anos, ou até menos, o calendário eleitoral, ou judicial, causa mais sobressalto do que o balanço das empresas. Quem aplica por aqui sabe que não está comprando apenas ações da Petrobras ou da Vale — está comprando também votos, recursos, embargos e, claro, decisões do Supremo. O investidor precisa do humor brasileiro para aplicar na BOVESPA.

E é nessa mistura de economia com novela jurídica que surge a confusão. Um país que deveria ser avaliado por sua produtividade, tecnologia e potencial de consumo acaba sendo medido pela temperatura política. Se a toga esquenta, o dólar sobe. Se a toga esfria, a bolsa sorri. Agora, existe a variável Trump.

A grande ironia é que, quem realmente sente os efeitos não são os ministros, nem os políticos, nem os grandes investidores. É o freguês: o trabalhador que vê a picanha e o chopp sumirem das mesas, a dona de casa que descobre que a feira encurtou e o estudante que paga mais caro no ônibus. Enquanto Supremo e Bovespa duelam pelo comando simbólico do país, a vida real continua apertando e furando novos buracos nos cintos. O feijão não entende de jurisprudência, o arroz não lê acórdão e o ovo não acompanha transmissão ao vivo do STF. Ao final, o baião de três..desanda.

O julgamento de Bolsonaro ainda vai render capítulos, discursos inflamados e análises apocalípticas. O mercado seguirá oscilando como escola de samba na avenida: um passo à frente, dois para trás. E o brasileiro, esse sim, resiliente, continuará acompanhando a saga com a sabedoria de quem já viu de tudo: do Plano Cruzado ao teto de gastos e de Collor ao PIX com cheirinho de DREX.

A Dona Maria me puxou para o canto da sua cozinha e disse, segredando: tô vendo no meu whatsapp, que os carros de Brasília estão parando lá pela casa do Bolsonaro. Os pastores estão dizendo que a Polícia Federal foi colocada dentro da casa do ex-presidente, com ordens para abrir as geladeiras e até tomar os vinhos. O banheiro do casal já é usado pelos “puliças” e o que tu estás esperando para encher a dispensa de arroz, feijão, macarrão, açúcar, sal, bolachas e carnes? Eu já vi isso antes?

 

Roberto Caminha Filho, economista, já sentiu essa temperatura política, aos doze anos e aos setenta e dois. Antes não havia Trump, mas sempre houve americanos nas fitas.

Foto: Agência Brasil

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