Opinião

Uma Ásia bem além da China

O governo brasileiro sai em busca de mercados

Por Marcos Magalhães

Enquanto o mundo observa o início do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e já se aguardam novas sanções do presidente americano Donald Trump, o governo brasileiro sai em busca de mercados. E a Ásia se mostra aberta a novos negócios.

Quando a gente fala de Ásia, vem naturalmente à mente a China, maior parceira comercial do Brasil. O fluxo de trocas entre os dois países alcançou US$ 136,3 bilhões em 2024, com superávit para o lado brasileiro de US$ 30,4 bilhões.

Mas o continente mais populoso do mundo vai além da China e mesmo do Japão, com quem o Brasil tem uma longa história de relacionamento econômico e cultural.

Um pouco mais ao sul dos dois gigantes econômicos situam-se os 10 países integrantes da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), criada em 1967, na Tailândia. Sua população total chega a 682 milhões de pessoas. O Produto Interno Bruto alcança US$ 3,8 trilhões.

Quando vista como bloco, a Asean já se tornou o terceiro maior destino das exportações brasileiras, à frente mesmo do Mercosul. Foram US$ 33,7 bilhões em movimento comercial no ano passado, com superávit de US$ 15 bilhões para o Brasil. Ou seja, metade do superávit registrado com a China.

Pois nas semanas que coincidiram com o anúncio pelos Estados Unidos das tarifas de 50% sobre exportações brasileiras, sob a alegação de que o Supremo Tribunal Federal deveria parar “imediatamente” o julgamento de Bolsonaro, dois países da Asean promoveram gestos de aproximação em Brasília.

O primeiro foi Singapura, que celebrou em grande estilo, na capital federal, seus 60 anos de independência. É o primeiro país da Ásia com o qual o Mercosul firmou tratado de livre comércio, em 2023 – que ainda depende de ratificação legislativa.

Ao receber os convidados, o embaixador Desmond Ng disse que o Brasil é uma “fonte vital” para a segurança alimentar de seu país e responde por quase metade das carnes congeladas consumidas na ilha de seis milhões de habitantes. A Embraer acaba de vender nove aviões regionais para a empresa aérea de Singapura.

“Esperamos trabalhar com o Brasil para ratificar o acordo com o Mercosul o mais rápido possível”, disse Desmond, “para que ele entre em vigor e contribua para o aumento do fluxo de comércio e investimentos entre nossos países”.

Poucos dias depois foi a vez do Vietnã, que recebeu mais de 400 convidados para celebrar 80 anos da independência de seu país, com a presença de vice-ministros brasileiros de Relações Exteriores, Defesa Nacional e Ciência e Tecnologia.

O embaixador Bui Van Nghi anunciou que os dois países pretendem alcançar comércio de pelo menos US$ 15 bilhões até 2030. Nos primeiros seis meses de 2025 o fluxo foi de US$ 4 bilhões, com superávit de US$ 1,5 bilhão para o Brasil.

Em março deste ano, na mesma rota de aproximação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma visita de Estado ao Vietnã. Quatro meses antes os dois países já haviam elevado a relação a uma parceria estratégica e anunciado um plano de ação até 2030.

Assim como a China, o Vietnã também elege metas de longo prazo. Nesse mesmo 2030, segundo o embaixador, quer ser “um país industrializado e moderno com renda média alta”. Aos 100 anos de independência, em 2045, uma “nação desenvolvida de alta renda”.

O tempo vai dizer se as metas serão alcançadas. Mas o país de 101 milhões de habitantes tem registrado crescimento médio de 6% em sua economia nos últimos 25 anos.

Segundo dados da Apex, o Brasil ainda responde por apenas 1,7% das importações da Asean, ainda bem abaixo de China (29,2%) e Coreia do Sul (9,6%). E as exportações brasileiras se limitam a produtos alimentícios, soja, petróleo e minério de ferro.

Se a diversificação é pequena, parece grande a possibilidade de maior aproximação com o Sudeste Asiático – não apenas no comércio, mas também em investimentos.

Ainda de acordo com a Apex, o Brasil atrai apenas 0,67% dos investimentos diretos dos países da Asean. E somente Singapura, com quem o Mercosul já tem um acordo firmado, tem um estoque de US$ 1,3 trilhão de investimentos espalhados pelo mundo.

A Asean, sozinha, não vai ajudar a resolver o problema criado com a tarifa de 50% imposta por motivos políticos pelos Estados Unidos. Mas ela demonstra que a Ásia deve ter prioridade na rota de diversificação das relações econômicas com o resto do mundo. Uma Ásia que vai bem além da China.

 

Marcos Magalhães. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *