Polícia

Filha de vítima de feminicídio contesta laudo que aponta inimputabilidade do padrasto: ‘não perdi a esperança na Justiça’

Politec atestou que o engenheiro agrônomo pode ser considerado inimputável em razão de quadro severo de depressão.

Caroline Fernandes, filha de Gleici Keli Geraldo de Souza, de 42 anos, assassinada com 21 facadas pelo marido em junho deste ano, questionou o laudo da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) que atestou que o engenheiro agrônomo Daniel Bennemann Frasson pode ser considerado inimputável em razão de quadro severo de depressão. Indignada com a conclusão pericial, a jovem destaca: “não perdi a esperança na Justiça”.

Além de matar a esposa, Daniel também desferiu golpes de faca na filha de apenas 7 anos, que dormia ao lado da mãe. A criança ficou dias internada na UTI, precisou de transfusões de sangue e só recebeu alta 23 dias após o ataque.

Após o feminicídio, o engenheiro tentou tirar a própria vida com facadas, foi internado e, ao receber alta, foi transferido para o presídio de Sorriso, onde permanece preso preventivamente.

Agora caberá ao Poder Judiciário decidir se o réu será levado a julgamento pelo Tribunal do Júri ou se o laudo poderá alterar a forma de responsabilização criminal.

No Direito Penal, a inimputabilidade é aplicada a pessoas consideradas incapazes de entender o caráter ilícito do fato ou de agir conforme esse entendimento, em razão de doença mental ou desenvolvimento mental incompleto. Quando reconhecida, o acusado pode não receber pena de prisão, sendo submetido a medidas de segurança, como internação psiquiátrica.

É justamente essa conclusão que Caroline contesta em uma longa sequência de publicações nas redes sociais. A jovem rebateu pontos do laudo pericial e questionou a possibilidade de Daniel ter sido incapaz de compreender seus atos no momento do crime. Ela afirma que o comportamento cotidiano do acusado demonstra lucidez e capacidade plena de discernimento.

“Engraçado que quando ia fazer churrasco, beber, fazer festa, ou discutir com a minha mãe por qualquer coisinha, estava em plenas faculdades mentais. Quando ele fazia planilhas no computador sobre tudo o que ela ‘gastava’ para depois cobrá-la, ele era são.  Quando ele fazia questão de estragar datas comemorativas, que sempre foram importantes para minha mãe, implicando com ela a ponto de desanimá-la, ele estava lúcido.”

A jovem ainda cita ações do padrasto que, segundo ela, contradizem a tese de surto:

“Maldade, crueldade, egoísmo, inveja. Não são doenças. São escolhas. Como alguém ‘incapaz de compreender o que estava fazendo no momento dos fatos’, abraça a própria filha pedindo desculpas por ter assassinado a mãe dela, enquanto ela dormia ao lado, e a apunhala com 4 facadas nas costas, deita ela e desfere mais 4 no peito?  Como alguém em surto manda mensagem para o irmão contando o que fez? Conversa no telefone? Silêncio em depoimento não é surto. É autodefesa.”

Caroline também relatou o impacto do ataque na vida da irmã de 7 anos: “Minha irmã tem medo de dormir sozinha, tem medo de dormir primeiro que eu, tem medo de acordar depois de mim, me pede para guardar os talheres antes de dormir. Precisa de acompanhamento psicológico, psiquiátrico, cardiológico, neurológico, nefrológico, e todos os ‘lógicos’ que vocês conseguirem pensar. Toma medicação controlada.”

Mesmo diante da dor e das dificuldades, Caroline afirma que mantém firme o compromisso de buscar justiça:

“Eu ainda não perdi a fé. Não perdi a esperança na Justiça. O mínimo que minha mãe merece é que o assassino pague pelo que fez, já que não há mais nada que possa ser feito.  O mínimo que minha irmã merece é estar segura […] saber que existiu justiça para ela e nossa mãe.  Isso não acabou”, finalizou.

Leiagora
Foto: reprodução

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