Cultura

Duas bibliotecas

Houve um tempo, dear reader, em que o som era dominante entre os nossos ancestrais e o conhecimento humano era passado de geração em geração através da oralidade, geralmente de forma improvisada, para os padrões de hoje. Até que, muitos dias e muitas noites depois, foram surgindo os desenhos, os símbolos, as letras e as palavras nas paredes, nas pedras, nos troncos das árvores e nos corpos. O que apenas se ouvia foi se tornando visível e uma grande reviravolta ocorreu dentro e fora da mente humana.

Séculos depois, embora contestada aqui e ali em alguns dos seus aspectos, a importância do ato de ler (e não apenas de ouvir) continua a ser reconhecida em todo o mundo como altamente eficaz como meio de aquisição, manutenção ou transmissão de conhecimento no cotidiano do homem moderno, seja como exercício mental, intelectual ou lazer. Em outras palavras: em casa, na rua ou em lugares específicos, como uma livraria, um sebo ou uma biblioteca, o que importa é ler (não importa o quê) – o máximo que cada um de nós puder ler diariamente.

Surgidas na Mesopotâmia (correspondente ao Iraque, à Síria e a outros países hoje), as primeiras bibliotecas remontam a cerca de três mil anos antes de Cristo, formadas com tábuas de argila e depois rolos de papiro e pergaminhos. Esses, vale sempre a pena ressaltar, foram os antepassados dos livros físicos e digitais que conhecemos hoje em dia. Aliás, o termo ‘biblioteca’ vem das palavras gregas biblion (livro) e theke (caixa ou depósito). No início, pois, elas funcionavam como grandes arquivos burocráticos e religiosos, aos quais a maioria da população não tinha entrada livre e ilimitada.

Com o passar dos séculos, o acesso a essas fontes de saber foi ficando mais fácil e flexível, sofrendo uma mudança radical somente nos séculos VII e VI antes de Cristo. Tempos depois, em 1440, com a criação da prensa/imprensa pelo inventor e artesão alemão Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg (1396-1468), a evolução/revolução cultural foi ainda maior. Graças a ela, a história da escrita e da leitura mudou totalmente e a circulação de ideias em escala global tornou-se possível.

No Brasil, no entanto, foi somente com a vinda da Família Real portuguesa, em 1808 (mais de três séculos depois do Descobrimento!), que o país passou a contar com o que viria a ser a Biblioteca Nacional, oficialmente criada em 1810, mas liberada ao público somente em 1814. De lá para cá, as bibliotecas se espalharam pelo território nacional, tornando-se pouco a pouco centros de aquisição de conhecimento e de compartilhamento de informação. Hoje, mesmo com todas as facilidades midiáticas e inovações tecnológicas criadas nos últimos anos ou meses, elas continuam à disposição de pessoas de todas as classes sociais.

Em Rondonópolis, segundo informação (equivocada) disponível no próprio site da Prefeitura (rondonopolis.mt.gov.br), há três bibliotecas municipais na cidade*. Corrigindo: há apenas duas que estão ativas (uma no Centro e outra na Vila Operária), pois uma delas (no Residencial Margaridas) foi desativada na gestão anterior e pode ser que volte a funcionar quando e se for retomada pelo poder público municipal, segundo pessoas ligadas ao setor. Isso, convenhamos, é uma péssima notícia para um município com mais de 250 mil habitantes, que deveria ter pelo menos oito bibliotecas, levando-se em consideração a média tida como ideal de haver ao menos uma biblioteca para cada 30 mil habitantes.

Se, como é de praxe nos discursos políticos, a meta é melhorar as condições de vida da população, será que aproximá-la dos livros e do conhecimento, em especial nas regiões mais periféricas, não devia ser realmente uma prioridade? Será que tornar ou manter as nossas bibliotecas mais atraentes e com colaboradores competentes e bem remunerados é algo assim tão difícil quanto eles (nossos líderes) fazem questão de parecer que é?

Bibliotecas são lugares que precisam de constante atualização e investimento para que a sua importância no processo de difusão histórica da comunicação humana se concretize. Elas podem ser atingidas por roubos, incêndios, alagamentos e infiltrações, por exemplo. A maior preocupação popular, porém, é com o descaso com que elas são tratadas por diferentes gerações atualmente, que se renderam às novas oportunidades, facilidades e comodidades que o mundo moderno oferece.

É preciso reconhecer que o hábito de leitura no Brasil (e no mundo) perdeu espaço para as redes sociais e para o ritmo frenético da vida online. O fato é que, historicamente, não somos um país de leitores e pensadores, mas de seguidores, espectadores e ouvintes. Para mudar essa realidade se faz necessária real dedicação ao tema, que não se resolverá de forma rápida e simples, mas com investimento de tempo e de dinheiro em diferentes partes do setor literário, com gente graduada (preferencialmente em Biblioteconomia, inclusive nas escolas das redes estadual e municipal), especializada e devotada à causa no comando.

Por fim, se realmente queremos resgatar, conhecer e respeitar a nossa própria história e a nossa memória, muito além do Arquivo Público Municipal, uma opção/obrigação do poder público é estimular a abertura ou a manutenção de bibliotecas comunitárias e de pontos de leitura com o auxílio de moradores e da iniciativa privada. No mundo ideal, esse deveria ser o objetivo da maioria da população, e não apenas de um grupo de “sonhadores”, como eu: bibliófilo, dono de sebo e louco por livraria e biblioteca.

* São elas a Biblioteca Municipal Rachid Jaudy/Jorge Mamed (1914-1988, comerciário e político cuiabano), a Biblioteca Municipal Manoel Severino da Silva (1926-1984, carpinteiro e político baiano, pioneiro na região da Vila Operária) e Biblioteca Municipal Centro de Artes e Esportes Unificados (CEU).

 

(*) JERRY MILL é professor, escritor, sebista e associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis

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