Cultura

O Diário

Por Dulce Lábio

Com 4 aninhos já descobri que precisava desesperadamente de uma folha de papel e caneta.
Descobri também a correção amorosa da varinha de goiabeira, porque meus primeiros rabiscos foram no caderno de pagamentos de meu pai.
Da descoberta da escrita ficou a lição do pai que corrige com amor. Amor que só aumentou por toda a vida.
Muitas páginas seriam necessárias para contar a saga do grande desbravador Evaristo de Lábio, quando chegou, no ano de 1958, à Rondonópolis. Incansável na sua plantação de café, destemido nas noites mata adentro em busca de caça para sustento da família.
Mas quero falar apenas do seu grande amor, e da dor, que trancou no peito quando, para dar aos filhos o que não teve, os estudos, nos enviou para longe, para a cidade grande.
Vejo o tamanho desse amor, ao recordar as dificuldades das viagens e da comunicação, quando cartas chegavam após meses, e os telegramas eram o que havia de mais rápido. Hoje um toque na tela e vemos e ouvimos no outro lado do mundo, não existem mais distâncias.
Mas o choro da separação foi o impulso que motivou, fortaleceu e trouxe vitória.
Um dia eu descobri em seu diário escrito em um caderno, (era mais, era um livro: O Diário de um Lavrador) a sua preocupação com meus 15 anos sonhadores, nas suas palavras o medo pelo meu futuro…eu o amei ainda mais.
Lá estavam registrados cada detalhe da vida distante da menina que gostava de escrever, seus sonhos, seus ensaios no teatro, e como ele disse, seu talento e sua inquietude.
Doeu em mim a tristeza que ele sentiu, descrita no papel, ao proibir o vôo de seu frágil passarinho, pelo medo da sua queda. Nesse dia ele acabou com minha possível carreira artística, mas não com meu amor por ele.
Dia a dia registrou sua luta na terra, suas dificuldades, suas dores, sua solidão. Mas também contou as alegrias do futebol aos domingos, o companheirismo e o cuidado com o próximo.
Contou da casinha na beira da estrada, a rede balançando na sala e o radinho de pilha quebrando o silêncio da noite, cobrindo tudo…só a chama das lamparinas iluminando e amarelando as páginas dos livros…ele lia.
O desbravador viveu e escreveu sua liberdade.
E muitos anos depois, ninguém entendia o motivo da minha alegria quando eu disputava com meus filhos, o colo do meu pai.
Eu queria o que não tive.
E até quando ele se foi para sempre, seu colo era o único lugar onde eu sentia que mal algum me atingiria.
Meu pai foi a certeza da proteção absoluta.
Todo pai deveria escrever na alma de seu filho…
Registre o seu amor por ele, e essa leitura
preencherá o vazio que ele um dia vai sentir, quando o seu colo já não estará.
Escreva na alma do seu filho e receberá dele o mais valioso presente que há nesse mundo: o amor.


Dulce Lábio – escritora, poetisa, jornalista e colaboradora do site www.seubairrohoje.com.br

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *