Editorial

Manchetes alarmistas e a desinformação que pode prejudicar a economia brasileira

Temos observado, com frequência, em alguns sites e portais de notícias, a publicação de matérias com manchetes extremamente alarmistas, como: “Maior indústria de eletrodomésticos fecha fábricas e demite milhares de funcionários”.

O problema não está necessariamente na informação publicada, mas na forma como ela é apresentada ao leitor.

Como é sabido, uma parcela significativa dos brasileiros costuma consumir notícias apenas pelas manchetes. Muitas pessoas não abrem a matéria para conferir o contexto, onde a informação ocorreu, quais empresas foram afetadas ou se a situação realmente envolve o Brasil.

É justamente aí que mora o perigo.

Em alguns casos, quando o leitor finalmente acessa o conteúdo, descobre que a notícia não é necessariamente falsa. A empresa realmente anunciou o fechamento de determinadas unidades e a demissão de funcionários. Porém, as fábricas estão localizadas em outros países, e não no Brasil.

Ainda assim, a manchete, construída de maneira propositalmente genérica e sensacionalista, pode levar o leitor a acreditar que a crise está acontecendo em território brasileiro.

Dias atrás, vimos mais um exemplo desse tipo de abordagem em um site que, para lembrar a expressão usada pelo personagem Odorico Paraguaçu, da novela O Bem-Amado, poderia ser classificado como “marronístico” — aquele jornalismo feito mais para causar impacto do que para informar corretamente.

E qual é o resultado?

O leitor desatento lê apenas a manchete, acredita que uma grande indústria está fechando suas fábricas no Brasil e demitindo milhares de trabalhadores. Em seguida, compartilha a informação nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp. Em pouco tempo, uma notícia verdadeira em determinado contexto transforma-se, na prática, em desinformação quando retirada de seu contexto original.

Isso não significa afirmar que toda notícia negativa sobre empresas ou sobre a economia brasileira seja falsa. Muito pelo contrário: a imprensa tem o dever de informar, inclusive quando as notícias são ruins.

O que precisa ser combatido é o uso de manchetes construídas para provocar medo, insegurança e indignação, especialmente quando o título não deixa claro que o fato ocorreu em outro país.

Esse tipo de jornalismo pode produzir consequências reais. A economia também é movida por expectativas. Se diariamente são disseminadas informações dando a impressão de que empresas estão abandonando o Brasil, fábricas estão fechando e milhares de trabalhadores estão sendo demitidos, cria-se no imaginário coletivo a sensação de que o país está à beira de um colapso.

E é justamente por isso que o jornalismo responsável precisa ir além do clique.

Informar não é apenas publicar um fato verdadeiro. É apresentar o fato corretamente, com contexto, precisão e responsabilidade.

A liberdade de imprensa é fundamental para a democracia, mas ela também exige responsabilidade de quem produz e divulga informação.

No final das contas, uma manchete pode até atrair milhares de cliques. Mas, quando ela deliberadamente induz o leitor ao erro, deixa de cumprir sua principal função: informar.

E enquanto alguns produzem manchetes para provocar pânico, cabe ao leitor fazer sua parte: não compartilhar uma notícia apenas porque o título parece assustador. Leia a matéria. Confira o contexto. Procure outras fontes.

Porque, em tempos de redes sociais, uma informação verdadeira, quando apresentada de maneira enganosa, também pode produzir desinformação.

Da editoria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *