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Profissionais da traição amorosa

Desde depois de Eva e Adão que, apaixonadamente, nos juntamos

Por Tânia Fusco

Desde depois de Eva e Adão que, apaixonadamente, nos juntamos. Também desde então, passa o tempo, por tédio ou vício, muitos deles, ou de nós, vamos procurar recreio em outras praias, sem prejuízo da ordem estabelecida. Há uns e umas que são verdadeiros profissionais na arte do drible doméstico.

* Cheiro meu

Ele tem sempre à mão restos de sabonete do banheiro do casal. Leva no bolso, na pasta. São usados no banho depois de encontros off. Assim, sempre volta para casa com o mesmo cheiro com que saiu.

Simples. Elementar. Ela conta: “Ele implica com restos de sabonete. Joga todos fora. É mania”.

* Café cenário

Ela mora numa cidade, o marido em outra. Artimanhas do mercado de trabalho. Como ninguém é de ferro, vez por outra, ela recebe visita off. Não pode dar bandeira para a auxiliar doméstica, herança da sogra. Também não se aperta. Dá folga, pedindo arrumação caprichada. Bandeja com a melhor louça sobre a mesa, garrafas com café fresco e água para chá, biscoitos finos. Para seis pessoas. “Vamos virar a noite”.

Consumada a visita, ela monta o cenário. Desarruma a sala, plantando xícaras com restos de café e chá por cada canto. Dois terços dos biscoitos são triturados e despachados nos vasos sanitários. O arremate é o fumacê deixado pelo Off, fumante inveterado, capaz de sujar vários cinzeiros em poucas horas. “Veio todo mundo ontem. Tô exausta”.

* A Brava Adormecida

Como o anjo da guarda dos bons profissionais não falha, K. tinha horário de trabalho diferente da sua consorte. Ela trabalhava durante o dia. Ele do meio da tarde ao final da noite. Fechado o jornal (era jornalista, sim senhor!), K. ia para casa, quase sempre acompanhado de amigos para jogar conversa fora madrugada a dentro.

Ela, obrigada pela jornada matutina, ia dormir mais cedo. Era a senha. K. alimentava o balde de gelo, abria nova garrafa, ativava a conversa e saia para comprar cigarros. Que ninguém saísse antes que ele voltasse, nem deixasse o silêncio reinar!

Embalada pela conversa rolando na sala, ela, que era tipo brava, dormia tranquila, sem suspeitar jamais que o marido tinha trocado o sofá da casa por outras poltronas. K. sempre voltava a tempo de estar na cama quando a Brava acordava. “Bom dia, amor”.

* Deu no jornal

Essa é de antes da Internet, do celular e do bina. Sempre que ia a São Paulo, a trabalho, a jovem senhora ficava hospedada em casa de amigos, onde era encontrável pela família. Para escapar do controle, quando tinha “assuntos extras”, mesmo indo para Sampa, informava outro destino. Curitiba, por exemplo.

Trocava os amigos, claro, por um hotel. Só ligava para casa depois de lido jornal de seu destino fake e, por rádio ou TV, saber direitinho a previsão do tempo por lá. Daí, sem ficar vermelha, reclamava do tempo – muito calor, muito frio –, e citava o acontecimento que tinha merecido manchete no jornal do estado que não tinha sequer sobrevoado. “Dia difícil. O trânsito está péssimo por causa dessa merda de greve dos…”.

Aviso: Ficção, baseada em acontecimentos cotidianos. Qualquer semelhança com fatos e pessoas reais é mera coincidência.

Metrópoles

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