Cultura

A casa vazia

*Roselene Viana

Em um pequeno vilarejo, moravam várias famílias. Dentro das casas, havia sorrisos altos, crianças correndo, casais se amando, vovó e vovô contando histórias. Em cada casa, as luzes estavam todas acesas, menos uma, que estava vazia, escura e sombria. Todos que olhavam para ela sentiam tristeza. Parecia chorar, ela sentia inveja das casas que estavam em plena alegria. A culpa era dela por estar completamente vazia ou da vizinhança? Não havia culpados para tanta tristeza e calmaria, só quem sentia a dor da solidão era a casa vazia. A criança, que era muito curiosa, perguntou ao seu pai: — Papai, porque aquela casa é a única que não mora ninguém? Parece uma casa assombrada. O papai respondeu: — Meu filho, essa casa era a mais cheia do vilarejo. Nela, não havia tristeza. A alegria, o amor, a paz e a união reinavam. Mas um dia, algo muito triste aconteceu: o filho mais velho brigou com seu irmão e nunca mais apareceu. – O pai, sendo muito generoso, foi conversar com o filho mais novo sobre o que aconteceu. O filho mais novo entendeu que o pai estava defendendo as atitudes do irmão mais velho, que também resolveu partir, deixando uma dor imensa para quem ficou ali. — O que fazer? – Dizia o velho para a sua esposa. A dor foi se consumindo naquele lugar. O perdão foi difícil de conquistar e cada dia era o fim para aqueles dois velhos que viviam ali. Uma madrugada, ouviram gritos de socorro. Toda a vizinhança saiu para ver o que tinha acontecido, mas trouxe uma triste notícia: a senhora, que já era idosa, era a avó amorosa, de tristeza, enfartou, Não aguentou a falta dos seus filhos e netos e morreu sem dizer adeus à família que tanto amou. O vô, que não sabia o que fazer, agora sem sua esposa ao lado, não aguentou e saiu sem rumo, sem endereço, e na rua foi viver. Hoje, a casa é só uma lembrança da alegria e do amor que viveu, mas se encontra vazia pela falta do perdão que não aconteceu.

 

*Roselene Viana – Escritora, poetisa, professora, terapeuta em Neurociência Comportamental, psicanálise em contos africanos e pós-graduada em Literatura Infantojuvenil. Associada efetiva da AJEB-MT, associação GAEB e membra da Academia de Letras de São Pedro da Aldeia, cadeira nº 101.

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