Opinião

A Epidemia das Apostas: quando o estado lucra e a sociedade paga a conta

Durante décadas, o Brasil combateu os jogos de azar sob o argumento de que eles provocavam vícios, destruíam famílias e alimentavam a criminalidade. Em 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra assinou o decreto que proibiu cassinos e diversas modalidades de apostas no país. A justificativa era clara: proteger a sociedade dos efeitos nocivos do jogo.

Mas a história tomou outro rumo.

Enquanto os cassinos eram fechados, o Estado passou a explorar diretamente as loterias oficiais. A primeira loteria brasileira surgiu ainda no período colonial, em 1784. Já a atual Loteria Federal foi instituída em 1961, durante o governo de Jânio Quadros, e passou a ser administrada pela Caixa Econômica Federal.

O famoso jogo do bicho, criado em 1892 pelo Barão de Drummond, permaneceu na ilegalidade, mas nunca deixou de existir. Pelo contrário: tornou-se uma das maiores contravenções do país, sobrevivendo graças à tolerância e à incapacidade do poder público de erradicá-lo.

Agora, o Brasil vive uma nova fase da mesma história.

Com a aprovação da Lei nº 14.790/2023, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as chamadas “bets” e os cassinos virtuais foram oficialmente regulamentados. O argumento do governo foi trazer segurança jurídica, arrecadação tributária e fiscalização para um mercado que já funcionava de forma praticamente livre na internet.

Na prática, porém, o que se vê é uma verdadeira explosão das apostas online.

Expansão dos jogos no Brasil

Evolução histórica das principais modalidades de apostas legalizadas ou toleradas no país.

Hoje, milhares de brasileiros são bombardeados diariamente por anúncios de apostas esportivas, cassinos online, roletas virtuais, caça-níqueis digitais e promessas de enriquecimento rápido. Celebridades, influenciadores e empresários poderosos emprestam suas imagens para promover plataformas que apresentam o jogo como entretenimento, quando para muitos ele se transforma em dependência.

O resultado já é visível.

Famílias endividadas, trabalhadores comprometendo salários, aposentados arriscando benefícios e jovens acreditando que a sorte pode substituir o esforço. A cada dia surgem novas plataformas oferecendo bônus, créditos gratuitos e falsas oportunidades de lucro fácil. A matemática, entretanto, permanece a mesma: no longo prazo, quem ganha é a banca.

Diante desse cenário, as autoridades não podem se eximir de responsabilidade.

Governos, Congresso Nacional, órgãos reguladores e entidades fiscalizadoras permitiram a expansão desse mercado e agora têm o dever de enfrentar suas consequências. Não basta arrecadar impostos sobre as apostas; é necessário criar mecanismos eficazes de proteção aos jogadores, restringir a publicidade agressiva, impedir o acesso de menores de idade e combater a atuação de plataformas ilegais.

A sociedade brasileira já convive há mais de um século com diferentes formas de jogo. O que mudou foi a velocidade e o alcance. Se antes era preciso ir até uma banca, uma lotérica ou um ponto clandestino, hoje basta um celular conectado à internet para apostar dinheiro a qualquer hora do dia ou da noite.

A questão que precisa ser respondida é simples: até onde o país está disposto a permitir que o jogo avance?

Porque, se o poder público não agir com firmeza, o número de dependentes continuará crescendo, o endividamento das famílias aumentará e muitas vidas poderão ser destruídas por uma atividade que, embora legalizada, continua carregando os mesmos riscos que justificaram sua proibição no passado.

E quando isso acontecer em escala ainda maior, será impossível dizer que as autoridades não foram avisadas.

Da redação

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