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A Unicamp projetou em 1994 o primeiro carro movido a hidrogênio brasileiro

Há 30 anos, outro Gurgel também construiu um carro 100% nacional à frente de seu tempo

Apesar de possuir não só um, mas dois sobrenomes em comum, o engenheiro mecânico Eduardo Gurgel do Amaral não tem nenhum parentesco direto com João Augusto do Amaral Gurgel, fundador da conhecida marca de veículos nacionais. Mas, talvez por alguma desconhecida ligação antepassada, também nutria o mesmo sonho: usar tecnologia nacional para construir um veículo próprio.

Os caminhos, porém, foram bem distintos. Ao contrário de João Augusto, que optou pelo tradicional sistema mercadológico, Eduardo encontrou no ambiente acadêmico as condições para realizar essa façanha.

Durante o mestrado em engenharia elétrica na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no início dos anos 1990, ele conheceu o professor Ênnio Peres da Silva, coordenador do Laboratório de Hidrogênio. Juntos começaram a tirar do papel um projeto para lá de ousado: um veículo nacional elétrico alimentado por célula de combustível a hidrogênio.

O desenvolvimento de veículos movidos a hidrogênio no Brasil reúne iniciativas pioneiras da academia e projetos contemporâneos voltados à integração com o etanol, combustível amplamente disponível no país.

O primeiro marco dessa trajetória ocorreu em 1994, com a criação do VEGA, considerado o primeiro carro a hidrogênio desenvolvido em território nacional. O protótipo foi idealizado por Eduardo Cavalcanti, à época mestrando da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e construído sobre a base de um Gurgel BR-800. A proposta inovadora previa a utilização de um reformador a bordo, capaz de extrair hidrogênio a partir do etanol, aproveitando a infraestrutura já existente de abastecimento. Apesar de ter ganhado destaque no Salão do Automóvel e despertado interesse de autoridades, o projeto não avançou para a produção em escala industrial, em razão de entraves burocráticos e falta de investimentos.

Nas últimas décadas, o país passou a concentrar esforços no desenvolvimento da tecnologia de células de combustível a hidrogênio (FCEV), com foco na integração ao setor sucroenergético. Nesse contexto, a Toyota introduziu unidades do modelo Mirai para testes no Brasil, em parceria com empresas como Shell e Raízen, com o objetivo de viabilizar a produção de hidrogênio a partir do etanol em uma estação experimental em São Paulo.

Outras iniciativas também avançam no campo da pesquisa aplicada. A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) apresentou, entre 2025 e 2026, um protótipo de veículo com motor a combustão adaptado para uso de hidrogênio, alternativa considerada mais acessível em comparação às células de combustível. Além disso, modelos como o Fiat Siena e o Honda CR-V vêm sendo utilizados em testes de viabilidade tecnológica no país.

A principal aposta brasileira está na produção de hidrogênio a partir do etanol, por meio de processos de reforma realizados no próprio local de abastecimento. A estratégia busca reduzir custos logísticos e posicionar o Brasil como potencial referência global em mobilidade sustentável.

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