Cultura

Alunos da Escola de Música da Vila Operária descobrem benefícios que ultrapassam o prazer da sonoridade

Roberta Azambuja

 

Expressão artística que permitiu a superação de uma depressão, a música existe na vida de Ivanei Rosa de Lima desde a adolescência. “Comecei a tocar clarinete na orquestra da igreja aos 14 anos”, lembra ela e conta quando, mais adiante, já mãe de duas crianças, durante uma situação crítica, a música foi seu bálsamo: “Foi uma fase difícil em que, logo após o divórcio, fui demitida da empresa onde eu trabalhava há 13 anos. Nesse momento delicado, ao tocar as composições musicais, encontrei o conforto que estava precisando e passei a praticar cada vez mais. Nesse período, também fui trabalhar como voluntária nas apresentações da Banda Municipal”.

Professora de matemática, além de musicista, Ivanei observa que o efeito da música na vida das pessoas tem um alcance que, muitas vezes, vai além da beleza do som que ouvimos. Ela comenta que, naquele período, ao levar as peças clássicas ao público, um novo ânimo se acendia em seu ser. “A música me resgatou do fundo do poço. Nos ensaios da Banda Municipal eu conseguia esquecer os problemas pelos quais estava passando e relaxava. Estava me sentindo tão pequena que, quanto era convidada a estar nas apresentações como integrante da banda, eu percebia que estava viva, que existia. Com as palmas e o reconhecimento da plateia, notava que, usando meu dom, podia fazer bem às pessoas”, desabafa a artista.

Paralelamente, ao reparar que seu filho mais velho, Aldo Rogerio de Lima Guimarães, na época com seis anos, já apresentava o mesmo pendor melódico, a professora passou a estimular essa tendência no garoto. “Foi em 2019, pouco antes da pandemia. O Aldo demonstrou um interesse muito grande pela música. Quando veio o período do Coronavírus e tivemos que ficar em casa, ele começou a pesquisar sobre o assunto na internet, pois já conhecia a flauta, que foi o primeiro instrumento com o qual teve contato”, rememora ela.

DNA MUSICAL

Logo em seguida, o menino ganhou um teclado do pai. “Foi nesse momento, com o estudo que fazia on-line, que ele começou a colocar as músicas nas partituras, de ouvido. Quando voltou para as aulas presenciais na Escola da Vila Operária, os professores constataram que ele tinha ouvido absoluto”, cita ela a respeito das lições recebidas na Escola Municipal de Música Adão Casemiro de Oliveira, enquanto o filho, a seu lado, explica: “Consigo reconhecer as notas tocadas com muita facilidade”, sobre a capacidade que tem para identificar esses registros sonoros apenas ao escutá-los, sentir os sons e entender as frequências e vibrações produzidas. E melhor: executá-las com maestria.

Já no retorno às salas de aula para aperfeiçoar seu talento, Aldo se interessou por outros instrumentos e começou a tocar, também, clarinete. Realizando as tarefas, após dois meses de frequentando a escola, foi convidado a integrar a Banda Municipal. “Sempre achei muito fácil escrever as notas das músicas que ouvia e também tocar instrumentos. Assim que comecei a participar da banda percebi que fluía, achava bem simples produzir o som. Gosto de ouvir todos os instrumentos, mas os que prefiro são piano e clarinete. E também me identifico mais com o estilo clássico”, compartilha Aldo que, hoje, tem 12 anos.

Ocupando, atualmente, uma cadeira como membro da Orquestra Municipal de Rondonópolis, Ivanei relata que fez questão de proporcionar ao menino a mesma trajetória de estudo que realizou até se tornar profissional da música: “Como eu iniciei minha prática na igreja, mas aperfeiçoei meu aprendizado na Escola de Música da Vila Operária, também quis que meu filho tivesse essa oportunidade de ensino”.

Ela recapitula o momento em que notou que o garoto tinha a mesma habilidade musical que carregava consigo e que esse fato lhe trouxe um ânimo ainda maior. “Ao ver que o Aldo apresentava a mesma inclinação musical que eu possuía, me senti ainda mais motivada a me debruçar sobre essa aptidão e estimulá-lo”, afirma, declarando sua paixão: “Tocar, para mim, é algo muito natural, que faz parte de quem sou. A música está dentro de mim, é uma realização. Eu amo a música”.

OUVIDO ABSOLUTO

Essa sensibilidade aguçada para a música é reconhecida e exaltada pelo professor de violão da Escola Adão Casemiro de Oliveira, o violonista Nilton Abreu de Oliveira, que ensina o instrumento para Aldo. “Sua aptidão para a música desabrochou a partir das aulas de solfejo, quando ele conheceu as notas musicais e, em seguida, a partitura e as memorizou, pois apresenta uma percepção e memória musical muito apurada”, especifica o mestre, que o acompanha e está atento ao que chama de “explosão de musicalidade para a qual o Aldo canaliza todo o seu potencial”.

Maravilhado com a habilidade do aluno, Nilton detalha que “acordes, notas, intervalos, ritmos e melodias, enfim, todos esses elementos estão internalizados no Aldo através do primeiro instrumento com o qual ele teve contato, que foi a flauta. Só que essa internalização musical ocorre de forma assombrosa, fenomenal e fora do comum, especialmente na idade dele. Isto significa que ele ouviu os sons um dia e os guardou na sua mente”.

Todas essas qualidades para sentir o tom musical e repeti-lo sem precisar ler o símbolo indicativo da nota, mas apenas pela percepção – que definem o ouvido absoluto – permitem, de acordo com o professor, que o adolescente assimile sons e os reproduza como se tivesse anos de estudo. “Ele apresenta uma performance para sua idade que só é vista em quem já está no conservatório, com elevado grau de conhecimento, especialmente da música erudita”, avalia o mestre.

A respeito desse desempenho, o violonista afirma que Aldo pode ser considerado tanto um prodígio quanto um virtuose. “Ele compreende qualquer partitura que coloquemos em sua frente. Agora, precisa apenas entender a técnica, a peculiaridade de cada instrumento para conseguir extrair deles as músicas. E essa particularidade que o Aldo apresenta é algo inexplicável racionalmente, é extraordinário”, declara.

Nilton esclarece a diferença entre as duas características: “O virtuose é aquele que executa com maestria uma nota lenta bem tocada ou várias notas rápidas. Para chegar a esse nível é preciso muita dedicação e disciplina, atitudes que o Aldo tem em relação à música. E o prodígio, por sua vez, é aquele que manifesta o dom muito cedo e de forma inusitada. Mas não acredito que uma pessoa nasça tocando. Ela precisa, de qualquer modo, de um contato musical, de uma referência que desencadeie essa habilidade inata”.

Ainda sobre a genialidade do aprendiz para a música, o professor vaticina: “Musicalizado, ou seja, alfabetizado musicalmente, o Aldo já é. A percepção dele para a música é fantástica. Juntando o estudo da técnica com a aptidão que lhe é inerente, ele vai tocar absurdamente. E tem tudo para ser um exímio multi-instrumentista”.

DO MAIOR À MENOR

Inspirando-se na mãe e no irmão, a pequena Rosa Gabriela de Lima Guimarães, de nove anos, também quis aprender música. “Eu via minha mãe tocando na igreja e ficava com vontade de tocar junto com ela”, diz a menina, que também estuda na Escola Adão Casemiro de Oliveira. Ao dividir sua vontade com Ivanei, a caçula da família foi prontamente atendida. “Falei para ela que queria participar da orquestra também”, recorda-se.

Satisfazendo o anseio da filha, a musicista perguntou a Rosa qual instrumento ela queria aprender. “Pedi para estudar escaleta”, assinala a miúda. Já sedimentando seu futuro e buscando prepará-la para ser uma instrumentista, caso mantenha essa aspiração até a vida adulta, Ivanei respondeu que, se Rosa quisesse participar da orquestra, ela precisaria ter lições de música. “Eu gostei da ideia. Então, mamãe me matriculou na Escola de Música da Vila Operária”, vibra a garota ao descrever a atitude da mãe.

Empolgada com o conhecimento que vem adquirindo, a menina contabiliza suas conquistas: “A primeira música que toquei foi ‘O pastorzinho’. Foi minha mãe que me ensinou. É aquela que canta dó, ré, mi, fá, fá, fá, dó, ré, dó, ré, ré, ré, dó, sol, fá, mi, mi, mi… Depois, o Aldo me ensinou outras músicas. Eu também gosto de tocar algumas no teclado do meu irmão”. Orgulhosa, Rosa comemora: “Eu já estou aprendendo a ler a partitura”.

Sonhadora, a artista mirim faz planos. “É muito legal ver minha mãe tocar. Eu quero fazer igual a ela quando crescer”, idealiza, revelando que a música também contagiou outro integrante da família: “Junto comigo, minha avó também começou a frequentar as aulas de música”.

NÃO AO ETARISMO

Apaixonada pelo som do violino, dona Isabel Bento de Lima, de 78 anos, procurou, anteriormente, uma instituição para aprender o instrumento, mas foi alvo de etarismo. “Aos 60 anos eu tentei me matricular em uma turma para estudar violino. Porém, não me aceitaram por causa da minha idade”, lamenta sobre a negativa que recebeu na época. “Eu fiquei muito triste e chocada, porque sabia que era capaz, tinha potencial para tocar e vontade de aprender”, desabafa.

O tempo passou e, após a pandemia, surgiu a oportunidade. “Foi na escola de música do Município, que estava oferecendo lições de música para pessoas com mais idade. Eu estava com 75 anos. Entrei na turma de violão. Esse foi o primeiro passo para a realização do meu sonho”, explana a mãe de Ivanei.

Pouco depois, dona Isabel passou a fazer aulas do instrumento que tanto admirava. “Foi na mesma escola municipal. O violino era o que eu queria, porque acho seu som o mais bonito de todos. Eu pensava que era fácil. Mas não é, não. De qualquer forma, só de aprender já estou feliz”, destaca ela. Ao frequentar o curso, a matriarca da família Lima descobriu outras afinidades musicais. “Notei que o teclado é um dos instrumentos mais fáceis. Então, para praticar, estou fazendo aulas de teclado e violão”, afirma.

Mas, não foi somente a realização pessoal que dona Isabel atingiu ao participar das aulas na Adão Casemiro de Oliveira. A presença da musicalidade em sua vida provocou sensação de bem-estar e tranquilidade. “Hoje, ao viver meu sonho de estudar música, sinto-me feliz, plena. Minha mente entrou em um estado de paz. Agora que me inseri na música, nada me abala”, proclama.

UNIVERSALIDADE

Inclusiva, a música acolhe e une pessoas independentemente da idade, classe social, gênero ou qualquer outra diferença. “Para estudar música não há idade, mas ajustes de acordo com a fase da vida”, defende o professor Nilton, que, além de ministrar as aulas para o Aldo, também ensina a Rosa e a dona Isabel em turmas diferentes.

Os ganhos são enormes, conforme o violonista. “Alunos mais velhos podem aprender música e, inclusive, se desenvolverem muito bem. Os benefícios que esse aprendizado traz são incomensuráveis. A musicalidade provoca felicidade e, quando percebe que consegue tocar, o aprendiz tem sua autoestima e autoconfiança elevada. Sem falar na interação social que ela promove”, resume o mestre.

Assim, transcendendo o simples deleite estético, abarcando sensações e emoções que atingem a psique humana, a música alcança o coração e a vida daqueles que a apreciam e dos que a praticam, alquimizando dor em alegria, preconceito em acolhimento, dúvidas em direção e rotas para se trilhar.

Quem quiser aprender algum instrumento ou, mesmo, participar de aulas de canto, deve acessar o link https://forms.gle/ev1JXvcM2b2Zy3dp8 e fazer a escolha de acordo com sua preferência. As matrículas estão abertas até 31 de agosto. Qualquer outro esclarecimento pode ser obtido pelo telefone (66) 9 8413-5944, de segunda a sexta-feira, das 7h às 11h e das 13h às 17h30.

Gcom

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