Cultura

As pessoas e as pedras

*Senio Alves

Há símbolos que atravessam séculos carregando materialidade e significados sempre atuais. A pedra, por exemplo, sempre tão sólida, tão antiga, tão bruta, insiste em reaparecer nas histórias que contamos para explicar os outros e a nós mesmos. Talvez porque, no fundo, aquilo que decidimos fazer com ela diz mais sobre quem somos do que qualquer palavra bonita que possa ser utilizada.

Aprendi cedo nos conselhos paternos, que na vida, as pedras surgem como obstáculos quase invisíveis pelo caminho e que não deveríamos ter telhados de vidro para atraí-las. Não seriam necessários os inúmeros tropeços, bastaria a leitura e a lembrança do poema de Carlos Drummond de Andrade. Mas temos o hábito de achar que a pedra é sempre um problema do outro. E seguimos sempre tropeçando na mesma pedra.

Sísifo que o diga, pois, condenado a empurrar eternamente um rochedo montanha acima, apenas para vê-lo desabar outra vez e outra vez. Às vezes me pergunto se essa não é a cena do nosso tempo: gente empurrando seus próprios pedregulhos cotidianos, repetindo tarefas sem sentido, atolada em notícias, crises, cobranças. E a “pedra” de grande peso nunca é questionada, mesmo sendo grande, absurda e indiferente ao esforço humano.

Há a pedra do julgamento, aquela que Cristo mencionou quando desarmou a multidão, dizendo: “Quem estiver sem pecado, atire a primeira.” É curioso como essa frase atravessou dois milênios e, mesmo assim, ainda encontramos gente disposta a arremessar pedras (agora digitais, velozes e anônimas), como se perfeição fosse pré-requisito dos outros, mas nunca de si mesmos.

Noutro canto da memória religiosa, ressoa a advertência de que “não restará pedra sobre pedra”. Frase providencial num mundo onde estruturas antigas ruem, instituições vacilam, certezas desmoronam. Não que as estruturas novas sejam mais duradouras, pois estão ruindo também. Os templos de pedras apequenaram-se diante das estruturas modernas da fé. Às vezes parece que estamos todos caminhando sobre escombros do que já fomos.

E, claro, há a pedra que derruba gigantes. Golias, seguro de sua própria força, jamais imaginou que uma pequena pedra pudesse alterar seu destino. É sempre assim: quando o orgulho cresce demais, um gesto mínimo é o suficiente para lembrá-lo de que ninguém é invencível. Uma lição antiga demais para que ainda precisássemos reaprendê-la, mas aqui estamos. Essas pedras, todas elas, têm algo de sombrio. Repetem, à sua maneira, o aviso de que podemos destruir, ferir, julgar, ou simplesmente ser esmagados por aquilo que acumulamos sem perceber.

Mas há outras pedras que contam uma história diferente e que nos auxiliam na busca da sabedoria, tendo como princípio a ideia de Michelangelo. O gênio via o mármore como a pedra perfeita e acreditava que a forma já existia dentro do bloco; dizia que o seu trabalho era apenas retirar o excesso para revelar a escultura escondida. A humildade do artista nos ensina que é necessário identificarmos nossas pedras e transformá-las em obras perfeitas.

Nas antigas crônicas do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, me chama a atenção a rocha anônima que recebe a lendária espada Excalibur. Ela permanece como a fiel depositária, guardiã imutável do destino, firme em sua missão de proteger a lâmina até que surja aquele que seja verdadeiramente digno de governar. Ali, repousando entre o mistério e o sagrado, a pedra espera o futuro rei, o único capaz de libertar a espada e defender o reino. Passagem simbólica que só perde em beleza para Cristo ordenando: “Pedro, tu és pedra, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”, conferindo-lhe autoridade e firmeza.

O alquimista buscava a pedra filosofal. Para além do objeto mágico, é a metáfora da transformação. Um ideal de aperfeiçoamento, de lapidar a si mesmo até virar algo melhor do que se era. Não deixa de ser um tipo de pedra interior, que só se encontra quando se tem coragem de olhar para dentro.

E me vem à memória a parábola de Malba Tahan: três obreiros, cada um esmigalhando as mesmas pedras com a sua pesada marreta. Um dizia que cumpria uma obrigação; outro, que ganhava o pão; o terceiro, que construía um grande templo. A mesma pedra, três sentidos diferentes. O que muda não é a rocha, é o olhar que a enxerga. Talvez seja essa a maior lição que precisamos aprender, a que a realidade se molda pela intenção com que tocamos o mundo. Falta-nos um ideal.

Até a pedra de Davi, vista deste outro ângulo, pode ser símbolo de coragem e precisão. Um gesto arriscado, mas necessário. No meio de tantos gigantes modernos, transmutados em sistemas, algoritmos, guerras e catástrofes ambientais, às vezes é preciso encontrar a nossa pequena pedra justa, angular, aquela que sem vaidade, destrói por necessidade de reequilibrar o que está fora de lugar.

 

No fim das contas, vivemos cercados de pedras: algumas nos ameaçam, outras nos sustentam, outras esperam um gesto nosso. E o mundo, que tantas vezes parece em ruína, talvez seja apenas o resultado das pedras que escolhemos carregar, guardar ou lançar. A pedra nunca é neutra; nós também não somos. Cristo falou de um templo que seria reerguido em três dias, lembrando que até o que cai pode renascer. O tempo em que vivemos exige essa mesma decisão: destruir ou reconstruir. Cabe a nós assumirmos o peso e a responsabilidade de cada gesto. Porque, no fim, somos nós que erguemos ou derrubamos o futuro, pedra por pedra.

*Senio Alves – Artista plástico, escritor, professor, pós-graduado em Alfabetização e Letramento pela FAEST/UniSerra (Faculdade de Educação de Tangará da Serra). Licenciado em Letras pela UNEMAT e em Pedagogia pela INVEST. Autor dos livros “Poemas desorganizados” e “Rondonópolis, 72 anos” (coautor).

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