Cultura

As sete voltas de Maria

Antes que te fizessem lenda,

tu foste apenas Maria:

corpo, desejo, riso alto,

vivendo cada dia,

vestida de muitas cores

caminhando contra o cinza

da cidade que não te via.

 

Depois, reconstruíram a tua vida,

deixando tua alma nua,

somando assombro, pecado, loucura;

cada boca pôs uma história sobre a história

que era só tua,

até ninguém mais saber

onde terminava a mulher

e começava a fantasia.

 

Então, mãos hábeis recolheram os pedaços de tua humanidade

e te refizeram costela em cimento:

ângulos, curvas, cores, crença,

um corpo sem pedir licença,

um monumento a ocupar a cidade.

 

És imperfeita, Maria,

sem a brancura renascentista do mármore de Carrara,

não és barroca nem classicista…

oste esculpida inteira

em teus muitos fragmentos

cubista.

 

Como aceitar

a tua falta de classe,

o descuido ao sentar,

teu cheiro de pobreza

e bafo de bar?

 

Não perdoaram tuas pernas,

tuas cores em plena avenida,

teu corpo exposto ao movimento

dos carros e dos olhos,

de forma tão atrevida.

 

Porque podem até tolerar

uma mulher transformada em pedra,

desde que aprenda

a cabeça abaixar.

Feriram-te o corpo de concreto,

arrancaram partes,

apagaram cores,

abriram em ti novas fendas.

 

E cada vez que te quebraram,

mãos pacientes te recompuseram.

Voltavas remendada,

mas ainda Maria;

à tua maneira,

menos intacta e mais verdadeira.

 

Agora te arrancam

do chão em que nasceste,

desfiando tua estrutura metálica

como se fosse a raíz rasa

de uma planta

fraca.

 

Sem temor,

sem o respeito devido

a quem atravessou tanta dor,

agindo mal,

deixaram teus pedaços

no chão do quintal

do próprio criador.

 

Tu voltarás mais uma vez, Maria.

Deixa que te consertem,

mas não permitas

que apaguem tuas cicatrizes.

 

Volta com cada remendo aparente,

feito uma nova geometria;

volta mais colorida,

mais cubista,

mais inconveniente.

 

Senta-te novamente

no canteiro da avenida,

mãos sobre os joelhos,

pernas retraídas,

e vive as sete voltas

de tua história merecida.

*Senio Alves – Artista plástico, escritor, professor, pós-graduado em Alfabetização e Letramento pela FAEST/UniSerra (Faculdade de Educação de Tangará da Serra). Licenciado em Letras pela UNEMAT e em Pedagogia pela INVEST. Autor dos livros “Poemas desorganizados” e “Rondonópolis, 72 anos” (coautor).

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