Geral

Como as redes sociais estão levando jovens a desafios perigosos e padrões extremos

Psicólogo Filipe Colombini explica como a dinâmica das plataformas digitais influencia a construção de identidade e amplia riscos à saúde mental de crianças e adolescentes

A influência das redes sociais sobre o comportamento dos jovens nunca foi tão direta — e preocupante. Especialistas alertam para o avanço das “bolhas perigosas”, que incentivam desafios extremos, padrões irreais e discursos radicais.

O impacto já é concreto. Segundo levantamento do Instituto DimiCuida, organização brasileira dedicada à conscientização sobre os riscos de desafios online, ao menos 56 crianças e adolescentes morreram no país, na última década, em decorrência dessas práticas, evidenciando como conteúdos muitas vezes tratados como “brincadeira” podem escalar para situações fatais.

Casos recentes mostram que o fenômeno está longe de arrefecer. Desafios envolvendo sufocamento, ingestão de substâncias e uso indevido de medicamentos voltaram a circular com força entre jovens, impulsionados por dinâmicas de viralização e pertencimento digital. Práticas como o “Blackout Challenge” e tendências que incentivam o consumo exagerado de remédios ilustram um cenário em que risco e engajamento caminham lado a lado.

Para o psicólogo Filipe Colombini, especialista em orientação parental, o problema está diretamente ligado à lógica das plataformas. “Os algoritmos operam reforçando padrões de comportamento já existentes. Isso cria uma percepção distorcida de normalidade, em que conteúdos potencialmente prejudiciais passam a ser validados como aceitáveis ou até desejáveis”, explica.

Segundo ele, adolescentes estão entre os mais vulneráveis, justamente por estarem em fase de construção de identidade e em busca de validação social. “Nesse momento da vida, o jovem está tentando entender quem ele é e onde pertence. Quando passa a consumir conteúdos que incentivam desafios de risco ou padrões extremos, há uma tendência de incorporar essas referências como modelo de comportamento e até como ideal a ser alcançado”, afirma.

Além dos riscos físicos, o impacto na saúde mental também preocupa. “A exposição contínua a conteúdos que reforçam comparação, inadequação e pertencimento condicionado pode intensificar sentimentos de insuficiência e fragilidade emocional. Não é apenas sobre o que se consome, mas sobre como isso reorganiza a forma como o indivíduo se percebe e interpreta o mundo”, destaca Colombini.

O especialista também chama atenção para o papel de adultos nesse cenário.“O foco não deve estar apenas no tempo de uso, mas principalmente na qualidade do conteúdo e nas mudanças de comportamento. Essas dinâmicas são muitas vezes silenciosas e passam despercebidas até que os impactos já estejam instalados”, diz.

Diante desse cenário, cresce a urgência de ampliar o debate público sobre o funcionamento das plataformas e seus impactos. “É fundamental compreender que esses ambientes não são neutros. Eles atuam diretamente na construção de valores, escolhas e relações. Desenvolver uma leitura mais crítica sobre esse contexto é essencial para mitigar riscos e promover saúde mental”, conclui.

Mais sobre Filipe Colombini: psicólogo, especialista em orientação parental e atendimento de crianças, jovens e adultos. Especialista em Clínica Analítico-Comportamental. Mestre em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Professor do Curso de Acompanhamento Terapêutico do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas – Instituto de Psiquiatria Hospital das Clínicas (GREA-IPq-HCFMUSP). Professor e Coordenador Acadêmico do Aprimoramento em AT da Equipe AT. Formação em Psicoterapia Baseada em Evidências, Acompanhamento Terapêutico, Terapia Infantil, Desenvolvimento Atípico e Abuso de Substâncias.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *