Internacional

Crise na saúde pública obriga famílias paraguaias a bancar tratamentos e expõe fragilidade do sistema

A falta de medicamentos, equipamentos e insumos nos hospitais públicos do Paraguai tem levado milhares de famílias a custear do próprio bolso tratamentos que deveriam ser garantidos pelo Estado. O drama vivido pela artesã Daniela Benítez, de 62 anos, tornou-se um retrato da crise enfrentada pelo sistema de saúde do país.

Quando sua filha, María del Pilar, foi internada às pressas em Assunção com pneumonia causada por tuberculose, Daniela precisou percorrer farmácias e lojas para comprar respirador, cânula, algodão e outros materiais indispensáveis ao atendimento. A despesa ultrapassou US$ 800, obrigando a família a recorrer a rifas e empréstimos. Após um ano de internação, María morreu.

Segundo Daniela, a escassez de insumos, a falta de médicos e a sobrecarga das equipes comprometem o atendimento. “Os profissionais fazem o que podem, mas trabalham sem estrutura”, afirma.

A situação ganhou repercussão internacional após a esposa do goleiro da seleção paraguaia, Orlando Gill, revelar que o atleta vendeu uniformes, chuteiras e outros bens para custear o tratamento do filho recém-nascido.

Dados mostram que cerca de 70% da população paraguaia depende exclusivamente da rede pública, enquanto o país investe apenas 4,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em saúde, percentual inferior aos 6% recomendados pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) para assegurar cobertura universal.

Especialistas afirmam que o sistema é fragmentado, com serviços públicos, previdenciários e privados funcionando de forma pouco integrada, o que aumenta custos e reduz a eficiência, sobretudo nas regiões do interior.

O governo reconhece dificuldades, mas atribui parte dos problemas ao aumento da demanda por atendimento e afirma que está investindo na construção de hospitais, compra de ambulâncias, modernização de equipamentos e digitalização dos serviços. Mesmo assim, médicos consideram as medidas insuficientes diante da falta de medicamentos, da precariedade das condições de trabalho e dos baixos salários.

Em agosto, profissionais da saúde anunciaram uma greve nacional de cinco dias para pressionar por mais investimentos no setor.

Outro fator apontado por especialistas é a baixa carga tributária do Paraguai, que limita a capacidade de investimento público. No entanto, representantes da categoria médica defendem que o maior obstáculo continua sendo a corrupção e a má gestão dos recursos.

Enquanto mudanças estruturais não acontecem, muitas famílias seguem organizando rifas, campanhas solidárias e vendas comunitárias para pagar tratamentos médicos. Para especialistas, essa realidade aumenta o risco de endividamento e empobrecimento da população, transformando o acesso à saúde em um dos maiores desafios sociais do Paraguai.

Redação

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