Opinião

Estamos criando uma “iática” literária?

Por Hermélio Silva

 

Não tenho dúvidas das vantagens importantes que a IA traz para a modernidade. Para a área onde atuo, como escritor, revisor e editor, ela facilita a produção textual, trazendo lufadas alvissareiras para qualificar o resultado dos trabalhos. A produção de conteúdo de qualidade tende a melhorar para quem usa a ferramenta como suporte, casos de sucessos, provocações e reengenharia dos seus textos

Todo mundo pode ser autor com a IA, mesmo que não tenha o hábito de escrever ou até quem nunca escreveu, pois basta verbalizar o que quer, que seus algoritmos se formarão em livros em poucos instantes. Oferta a um griô, por exemplo, que nunca transcreveu sua oralidade, produzir uma cartilha, e que vai ser um instrumento para uso e pesquisas futuras.

Brincar, produzir, corrigir e receber dados importantes para melhorar o seu texto, estão aí nas inúmeras IAs, de forma graciosa, que potencializa a democratização à produção textual padrão, com boa produtividade. Erros comuns e até complexos, isso será apontado em segundos, preciosos segundos, que demorariam no labor manual de um profissional da área em algumas semanas, incorrendo em atrasos e imperfeições.

O editor vê o seu trabalho esfumaçando entre seus dedos, o revisor ainda mais. Visto que bastam dois cliques para se corrigir um texto e antes que se pronuncie a lendária palavra abracadabra e o texto estará pronto.
Fico pensando o que o Raul Seixas diria hoje sobre essa pauta. Quando dizia que com um só palito pararia o motor, isso ainda, em 1974. E os textos enlatados, as músicas entediantes, que só conseguimos ouvir uma vez na vida, naquele tempo já chamavam de “humanoides”, e agora? Temos textos aos borbotões, vazando como se fosse a água da pia da cozinha. Textos padronizados e robóticos, que o copidesque arrepia ao notar que suas intervenções correrão os riscos de fugir da originalidade, do “eu” do autor, da sua história pessoal e cultural. Alguns autores vão sair por aí como um eventual doido varrido, dizendo que suas ambiguidades não mereceram constar do texto, que suas cicatrizes foram curadas e tratadas.

A IA pode ser a melhor assistente para o autor, respondendo por quase 100% da sua obra, mas nunca vai substituí-lo nos seus próprios pensamentos. Suas conexões da vida e suas passagens vividas que só ele, o pensador, tem no seu “HD Interno”. Pode colocar calor e fugindo da mesmice de textos. Com o tempo poder-se-á ver que o seu pensamento não concorda com o seu texto robô. Sua verbalização e até em encontros ver-se-á que produz palavras e frases que não coadunam com o que está escrito.
Também usei da ferramenta para melhorar este texto.
Está escrito!

22.09.2026

Hermélio Silva – É formado em Marketing, editor e escritor, com 39 livros publicados. É membro fundador da Academia Rondonopolitana de Letras – ARL, onde ocupa a cadeira nº 06, e integrante do Comitê Nacional de Cerimonial e Protocolo – CNCP.

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