Política

Lula, Flávio Bolsonaro e Augusto Cury: três projetos diferentes para o Brasil

A eleição presidencial de 2026 começa a ganhar contornos mais definidos. Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Augusto Cury (Avante) aparecem entre os três nomes mais bem posicionados nas pesquisas e apresentam propostas bastante diferentes em áreas que afetam diretamente a vida dos brasileiros.

A disputa não se resume à preferência partidária. Economia, impostos, saúde, educação, segurança e geração de empregos mostram diferenças importantes entre os três projetos.

ECONOMIA

Lula: defende a manutenção do arcabouço fiscal, mas com forte participação do Estado nos investimentos. Seu programa prevê uma nova edição do Novo PAC, investimentos em infraestrutura, indústria, ferrovias e programas habitacionais, além de concessões e parcerias com a iniciativa privada. A estratégia é utilizar o investimento público para estimular o crescimento e a produtividade.

Flávio Bolsonaro: apresenta uma proposta de redução do tamanho do Estado. O programa prevê um “tesouraço”, com corte de despesas, redução de ministérios e cargos comissionados, novo teto de gastos e retomada de privatizações e concessões. A ideia é diminuir o peso do governo sobre a economia e criar condições para o setor privado investir mais.

Augusto Cury: propõe buscar déficit público próximo de zero, reduzir custos do governo e direcionar recursos para infraestrutura, saúde e educação. Também aposta fortemente no empreendedorismo, com a meta de estimular a criação de milhões de novos empreendedores.

Diferença principal: Lula aposta em maior atuação do Estado como indutor do desenvolvimento; Flávio defende enxugamento da máquina pública e maior espaço para a iniciativa privada; Cury tenta combinar equilíbrio fiscal, redução de despesas e estímulo ao empreendedorismo.

IMPOSTOS

Lula: pretende dar continuidade à reforma tributária e utilizar políticas de desenvolvimento produtivo e incentivos fiscais para setores considerados estratégicos.

Flávio Bolsonaro: coloca a redução da carga tributária entre suas principais bandeiras econômicas. Seu programa relaciona a diminuição dos impostos ao corte de gastos e ao enxugamento da máquina pública.

Augusto Cury: também defende redução de despesas públicas e busca de equilíbrio das contas. Uma de suas propostas específicas é aumentar fortemente a tributação sobre as empresas de apostas, as chamadas bets, utilizando esses recursos para ajudar no equilíbrio fiscal.

Diferença principal: Flávio apresenta uma agenda mais explícita de redução de impostos; Lula prioriza a reforma tributária e políticas de desenvolvimento; Cury procura reduzir despesas e compensar parte da arrecadação com maior tributação sobre setores específicos.

SAÚDE

Lula: aposta no fortalecimento do SUS. Entre as propostas estão a expansão das equipes multiprofissionais, ampliação da saúde digital, prontuário eletrônico integrado, fortalecimento do Farmácia Popular, vacinação e ampliação do atendimento odontológico.

Flávio Bolsonaro: também prevê fortalecimento do SUS, mas com maior ênfase em tecnologia e descentralização. Propõe telessaúde para regiões distantes, produção nacional de vacinas, correção da tabela do SUS e entrega de medicamentos em casa para idosos, pessoas com deficiência e pacientes crônicos.

Augusto Cury: coloca a telemedicina no centro de sua proposta. O candidato defende que grande parte das consultas básicas possa ser realizada por teleatendimento, além da ampliação do acesso ao SUS.

Diferença principal: os três defendem tecnologia na saúde, mas Lula concentra sua proposta no fortalecimento e expansão do SUS; Flávio enfatiza atendimento, vacinação e tecnologia; Cury aposta de maneira mais agressiva na telemedicina.

EDUCAÇÃO

Lula: propõe ampliar o ensino em tempo integral, combater o analfabetismo, recuperar a aprendizagem, ampliar o ensino técnico e criar novos institutos federais. Também prevê programas de formação e valorização de professores.

Flávio Bolsonaro: defende alfabetização pelo método fônico, expansão das escolas cívico-militares, ensino em tempo integral, educação técnica e distribuição de recursos baseada em resultados. Também propõe vouchers para alunos quando não houver vaga na rede pública.

Augusto Cury: coloca a educação como um dos principais pilares de sua candidatura. Defende ensino integral com desenvolvimento socioemocional, educação financeira, empreendedorismo e atividades culturais. Também propõe políticas de inclusão de estudantes neurodivergentes.

Diferença principal: Lula enfatiza expansão da rede pública e ensino técnico; Flávio combina educação tradicional, escolas cívico-militares e mecanismos de escolha da família; Cury dá grande destaque ao desenvolvimento emocional, comportamento, empreendedorismo e formação integral.

SEGURANÇA PÚBLICA

Aqui está uma das maiores diferenças entre os três.

Lula: defende integração entre União, estados e municípios, inteligência policial, controle de armas e munições, câmeras corporais, combate financeiro às organizações criminosas e fortalecimento do sistema penitenciário federal. Também propõe a criação de um Ministério da Segurança Pública.

Flávio Bolsonaro: apresenta uma política de endurecimento penal. Defende redução da maioridade penal para 16 anos, punição mais severa para criminosos, cinco novos presídios de segurança máxima, reconhecimento facial, uso das Forças Armadas nas fronteiras e classificação de grandes facções como organizações narcoterroristas. Também propõe castração química para condenados por crimes sexuais.

Augusto Cury: concentra sua proposta em prevenção e atuação comunitária. Entre as ideias estão forças municipais de prevenção, utilização de servidores municipais nessa atividade e medidas específicas contra feminicídio, incluindo botões de pânico, geolocalização e aplicativos de emergência.

Diferença principal: Lula aposta em inteligência, integração e controle das forças policiais; Flávio em endurecimento das penas e combate direto ao crime organizado; Cury procura priorizar prevenção, tecnologia e atuação comunitária.

EMPREGO E RENDA

Lula: relaciona a criação de empregos aos investimentos públicos, industrialização, infraestrutura e valorização da produção nacional. Também defende o processamento no Brasil de minerais estratégicos para gerar empregos qualificados e aumentar o valor agregado das exportações.

Flávio Bolsonaro: aposta na redução da burocracia, diminuição de impostos, concessões, privatizações e maior liberdade para empresas e empreendedores. A expectativa é que um ambiente com menos custos e intervenção estatal estimule investimentos privados e, consequentemente, empregos.

Augusto Cury: coloca o empreendedorismo no centro de sua estratégia. Seu programa fala em incentivar a criação de até 10 milhões de novos empreendedores, facilitar o acesso ao crédito e estimular pequenas empresas, agroindústrias, cooperativas e negócios regionais.

Diferença principal: Lula vê o Estado e a industrialização como motores importantes da geração de empregos; Flávio aposta principalmente no setor privado e na redução dos custos para quem produz; Cury pretende ampliar fortemente o número de empreendedores e pequenos negócios.

TRÊS CAMINHOS PARA O ELEITOR

A comparação mostra que os três candidatos apresentam projetos com prioridades diferentes.

Lula representa uma proposta de Estado forte, investimento público, políticas sociais, fortalecimento do SUS e da educação pública e industrialização.

Flávio Bolsonaro apresenta uma agenda de Estado menor, redução de impostos, maior participação privada na economia, endurecimento da legislação penal e valores conservadores.

Augusto Cury tenta ocupar um espaço próprio, baseado em educação, saúde mental, tecnologia, empreendedorismo, equilíbrio fiscal e prevenção da violência.

Há também pontos de convergência. Os três defendem, por exemplo, a expansão do ensino em tempo integral e o uso de tecnologia na saúde. Todos também apresentam propostas de combate às organizações criminosas, embora com estratégias bastante diferentes.

A grande questão para o eleitor, portanto, não será apenas escolher entre três nomes, mas decidir qual modelo de Estado, economia e políticas públicas considera mais adequado para o Brasil dos próximos quatro anos.

Transcrito El País

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