Opinião

Nada mais espanta: a política entre o lucro e a impunidade

Denúncias envolvendo Flávio, Ciro Nogueira, Motta e Jaques Wagner ilustram como a moralidade pública foi escanteada em troca de favores

Por Ricardo Noblat

Deve ser um bom negócio concorrer a eleições, haja vista o número crescente de candidatos. Faz bem ao ego. Você se torna conhecido e pode acabar se elegendo. O principal: sem gastar dinheiro. Os outros que gastem — fundos partidários ou doadores espontâneos. Sabe o que mais? Em muitos casos, as sobras de campanha enriquecem, sem distinção, candidatos vencedores e perdedores.

O ex-presidente Jânio Quadros ganhou fama como um mestre em arrecadação de dinheiro. Diz a lenda que, certa vez, ao receber um cheque da comunidade judaica de São Paulo, ele o rasgou de imediato por considerar aquilo “uma afronta”. Afinal, o valor do cheque não estava à altura da fortuna da comunidade, argumentou, nem da simpatia que ele tinha por ela. Recebeu outro na mesma hora.

Fernando Collor, o primeiro presidente eleito pelo voto popular depois de 21 anos de ditadura, cabalava apoios e votos, mas evitava falar em dinheiro. Delegou a tarefa ao empresário Paulo César Farias (PC Farias). O dinheiro foi tanto para barrar as chances de Lula e de Leonel Brizola se elegerem, que Collor e PC passaram a viver com o que sobrou. Por isso, Collor foi cassado, e PC Farias, assassinado.

O avanço do Congresso sobre o controle do Orçamento da União dispensa deputados federais e senadores de se preocuparem com o financiamento de campanhas. O dinheiro das emendas parlamentares é suficiente para dar conta do recado. São eles, ao gosto de cada um, que determinam onde, quando e como o dinheiro deve ser aplicado em seus redutos. E ainda embolsam parte dele. Nada mais espanta. A corrupção naturalizou-se. Ninguém reclama.

O Caso do Banco Master é o melhor exemplo disso no momento. Um senador (Flávio Bolsonaro) não vê nada demais em negociar um total de R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre seu pai. Desse montante, pelo menos cerca de R$ 61 milhões foram repassados pelo banqueiro entre fevereiro e maio de 2025.

Outro senador (Ciro Nogueira) também não vê nada demais em receber mesadas de Vorcaro no valor de R$ 350 mil mensais, além de ter pagas as viagens em jatinhos, compras de roupa para enfrentar o frio nos Alpes franceses e despesas com sua companheira. O presidente da Câmara (o minúsculo Huguinho Motta) não se constrange com o fato de ter viajado e se hospedado em Lisboa por conta de Vorcaro.

Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado, é investigado por ter pedido ao banqueiro Augusto Lima, seu amigo e ex-sócio de Vorcaro, que comprasse em Salvador um apartamento avaliado em R$ 2,5 milhões. Ele o recompraria quando tivesse dinheiro. Foi crime? Se não foi, foi imoral. Lula espera que ele não demore a se afastar da função para não ter que afastá-lo.

Enquanto isso, nós, brasileiros, só prestamos atenção aos jogos da Copa, embora descrentes no hexa.

Ricardo Noblat é jornalista

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