Cultura

Negritude: a essência de ser humano

Crônica literária

*Noêmia Madureira de Souza

 

Há poucas coisas tão simples e, ao mesmo tempo, tão profundas quanto afirmar: sou humano.

No entanto, ao longo da história, essa afirmação precisou ser defendida inúmeras vezes. E, muitas vezes, por causa de algo que deveria ser apenas uma característica física: a cor da pele.

Digo, com serenidade e orgulho: sou negro. Negro com orgulho de ser gente, de ter sangue quente, de não temer gente. O que surpreende é perceber que ainda existem pessoas que parecem esquecer que também são gente.

Pessoas que olham para a cor da pele de outro ser humano e a transformam em motivo de julgamento.

Mas pele não é gente.

É curioso pensar que a pele — o maior órgão do corpo humano — não tem o poder de definir aquilo que realmente somos. Ela cobre o corpo, protege, identifica, mas não determina a essência.

Ser humano é mais do que biologia.

A ciência pode descrever nossa composição: oxigênio, carbono, hidrogênio, nitrogênio, cálcio e fósforo. Pode explicar nossos sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato. Tudo isso é verdadeiro, necessário e fascinante.

Mas ainda assim não explica completamente o que é ser humano.

Há algo além da matéria.

A tradição judaico-cristã chama esse algo de Imago Dei — a imagem e semelhança de Deus no ser humano. É essa ideia que aponta para nossa dimensão espiritual, para nossa consciência moral, para nossa capacidade de amar e de reconhecer o outro.

Quando essa essência está presente, o ser humano reflete valores que ultrapassam a sobrevivência: amor, justiça, misericórdia.

Mas quando se distancia dessa essência, algo se perde no caminho.

Perde-se a sensibilidade, enfraquece-se a consciência e o outro deixa de ser reconhecido como semelhante.

Talvez seja por isso que ainda existam preconceitos que parecem tão antigos quanto injustos.

E ainda assim, mesmo diante dessas contradições, é possível afirmar com convicção:

Sou humano. Como você.

E é nesse ponto que a negritude se revela não apenas como identidade, mas como resistência, memória e dignidade.

Como escreveu o poeta antilhano Aimé Césaire em Caderno de um Regresso ao País Natal:

“Minha negritude não é nem torre nem catedral

Ela mergulha na carne rubra do solo

Ela mergulha na ardente carne do céu

Ela rompe a prostração opaca de sua justa paciência.”

Talvez seja exatamente isso.

A negritude não é uma construção de pedra, nem um monumento.

É algo vivo.

Algo que nasce da terra, atravessa a história e continua afirmando, todos os dias, a mesma verdade essencial: ser humano é muito mais do que aquilo que os olhos veem.

 

*Noêmia Madureira de Souza – É professora efetiva da Rede Municipal de Ensino, atualmente diretora de CMEI, Psicopedagoga Clínica e Institucional e Escritora. Integra o Grupo de Escritores Brasileiros (GAEB) e a Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil.

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