Opinião

Selic cai, desigualdade sobe: o sistema financeiro segue lucrando enquanto o povo paga a conta

A nova redução da taxa Selic para 14,50% ao ano, anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), pode até soar como um alívio técnico nos relatórios do mercado, mas está longe de representar qualquer melhora concreta para a maioria da população brasileira. Na prática, trata-se de mais um movimento que preserva a engrenagem de um sistema financeiro que continua operando em benefício próprio, distante da realidade de quem produz, consome e sustenta a economia.

Após meses estacionada em patamares extremamente elevados — chegando a 15% ao ano —, a taxa básica de juros recua timidamente. O discurso oficial aponta controle da inflação e cautela diante de incertezas globais, como a crise energética. No entanto, o silêncio do Banco Central sobre os próximos passos revela mais do que prudência: evidencia a falta de compromisso com uma política econômica que dialogue com as necessidades reais do país.

Para o mercado financeiro, juros altos significam ganhos robustos, segurança e previsibilidade. Para o trabalhador, representam crédito caro, consumo retraído e oportunidades cada vez mais escassas. Essa equação é simples — e profundamente desigual. O sistema funciona como uma transferência silenciosa de renda, drenando recursos da base da pirâmide para o topo.

Enquanto grandes instituições financeiras operam com margens confortáveis, a população mais pobre enfrenta uma realidade brutal. Financiamentos se tornam armadilhas, com taxas que extrapolam qualquer razoabilidade. Aposentados, muitas vezes sem alternativa, recorrem ao crédito consignado e acabam presos em ciclos de endividamento praticamente impagáveis.

À margem desse sistema formal, cresce um mercado ainda mais perverso: o da agiotagem. Com juros que ultrapassam 10% ao mês, cidadãos em situação de desespero entregam bens pessoais como garantia, correndo o risco de perder tudo. Trata-se de um submundo financeiro que prospera à sombra da omissão das autoridades. É crime — mas segue amplamente tolerado.

O mais grave é que esse cenário não é fruto do acaso. Ele reflete um modelo estrutural que prioriza a estabilidade dos indicadores macroeconômicos em detrimento da dignidade social. A política monetária, como vem sendo conduzida, ignora o impacto direto sobre milhões de brasileiros que vivem no limite.

É urgente repensar esse sistema. Não se trata apenas de ajustar taxas, mas de redefinir prioridades. Sem fiscalização rigorosa, sem controle sobre práticas abusivas e sem uma política de crédito que seja, de fato, inclusiva, o país continuará refém de um mecanismo que penaliza os mais vulneráveis.

A queda da Selic, isoladamente, não resolve o problema. Enquanto o sistema financeiro seguir operando como um fim em si mesmo — e não como um instrumento de desenvolvimento —, o Brasil continuará preso a um ciclo perverso: crescimento para poucos, sufoco para muitos.

José Carlos Garcia/Editorialista

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