Opinião

Uma vez que o shabat terminou, a matança pode começar em Gaza

Tudo pronto para a invasão anunciada

Por Ricardo Noblat

O mundo, até mesmo aquele aliado incondicional de Israel, está assombrado com o que possa acontecer quando a Faixa de Gaza for invadida por terra, mar e ar, como foi anunciado que será.

É sobre as regras da guerra, desrespeitadas em 10 de cada 10 conflitos que já rolaram e ainda rolam. A Convenção de Genebra, que regula as guerras, é de 1949 em sua versão mais conhecida.

De acordo com ela, os civis são claramente protegidos de toda hostilidade:

eles não podem ser sequestrados para servir, por exemplo, de “escudos humanos”;

as punições coletivas são estritamente proibidas.

Os países em guerra não podem utilizar armas químicas uns contra os outros. O uso de balas explosivas ou de material que cause sofrimento desnecessário nas vítimas é proibido.

Prisioneiros de guerra devem ser tratados com humanidade e protegidos da violência. Não podem ser espancados ou utilizados com interesses propagandistas.

É proibido matar alguém que se tenha rendido. Nas áreas de batalha devem existir zonas demarcadas para onde os doentes e feridos possam ser transferidos e tratados.

Proteção especial contra ataques será garantida aos hospitais civis marcados com a cruz vermelha. É permitida a passagem livre de medicamentos. Ataques a cidades desprotegidas são proibidos.

Um prisioneiro pode ser visitado por um representante de seu país. Eles têm o direito de conversar reservadamente. As nações devem identificar os mortos e feridos e informar seus familiares.

O Hamas não é uma nação, mas um grupo terrorista, e por isso se sente desobrigado de respeitar quaisquer regras. Mas Israel é uma nação, e, portanto, obrigada a respeitá-las.

O Hamas sequestra pessoas, como fez há uma semana com 126 israelenses, e usa os palestinos de Gaza como “escudos humanos”. Mas isso Israel não pode fazer e, aparentemente, não faz.

Em compensação, Israel aplica punições coletivas, como está fazendo quando impede o acesso dos palestinos de Gaza a luz, água, alimentos e remédios, e muitas vezes mata quem se rende.

Entre 2008 e 2022, cerca de 6.500 civis palestinos e pouco mais de 300 israelenses morreram em conflitos, apontam dados da ONU. Agora, em uma semana, 1.300 israelenses e 2.200 palestinos.

Segundo os serviços de inteligência de Israel, o Hamas conta com até 30 mil combatentes e 30 mil foguetes, 5 mil dos quais já disparados nos últimos dias, e a maioria fabricados em Gaza.

Atualmente, Israel tem 173 mil militares na ativa e 460 mil na reserva; desses, 300 mil já foram convocados. O Exército de Israel é um dos mais poderosos do Oriente Médio, se não o mais.

Ao seu dispor, 601 aeronaves, 126 helicópteros, 2.200 tanques de guerra – muitos deles vistos na fronteira com Gaza – e 56.290 veículos blindados. Algo como 400 tanques estão alinhados para a invasão.

Israel poderia usar suas bem treinadas forças especiais de defesa e inteligência para localizar e, se fosse o caso, matar os terroristas do Hamas, e tentar resgatar com vida os sequestrados.

Mas não foi para isso que se preparou. Sob um governo de extrema direita, Israel preparou-se para promover uma matança, um massacre, e é isso, infelizmente, o que poderemos assistir.

Fundadora de Israel e primeira-ministra à época da guerra do Yom Kippur, em 1973, quando seu país foi atacado pelo Egito e Síria, Golda Meir cunhou duas frases que se tornaram célebres:

“É verdade que vencemos todas as nossas guerras, mas pagamos por elas. Nós não queremos mais vitórias”.

“Eu não os odeio por terem matado nossas crianças. Eu os odeio por terem me levado a matar as suas crianças”.

Shalom!

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