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Marmelada que não é marmelo: a fruta nativa do Cerrado que poucos conhecem

Apesar do nome parecido, a fruta pertence à família do café e nada tem a ver com o marmelo tradicional

Quem ouve falar pela primeira vez na marmelada-nativa imagina, quase sempre, uma fruta parecida com o marmelo europeu. O nome sugere isso. Mas a semelhança para por aí. A planta não guarda qualquer relação botânica com a espécie que dá origem ao marmelo tradicional, e o equívoco acompanha a fruta desde os primeiros registros feitos por viajantes que percorreram o interior do Brasil.

A marmelada-nativa recebe diferentes apelidos conforme a região do país. Marmeladinha, marmelada-do-campo, marmelada-macho, marmelada-de-cachorro e marmelada-de-bezerro figuram entre as denominações mais comuns. A diversidade de nomes populares reflete a distribuição ampla da espécie, que ocorre tanto no Cerrado quanto na Amazônia.

 

Botanicamente, a fruta pertence à família Rubiaceae, a mesma do café. Espécies como a Alibertia edulis, conhecida também como marmelada-bola ou marmelo-do-cerrado, são nativas e bastante frequentes no Cerrado brasileiro. Outras variedades, como a Cordiera sessilis, seguem o mesmo padrão de planta nativa do bioma.

Onde a fruta cresce e como se apresenta

marmelada ocupa ambientes de Cerradão e Mata de Galeria, com distribuição registrada no Maranhão, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo. A frutificação acontece durante a estação chuvosa, e a dispersão das sementes ocorre principalmente por meio de mamíferos que se alimentam da polpa.

Marmelada-nativa: o fruto silvestre que vira geleia, doce e até café
Do tamanho de uma romã e com polpa escura, a marmelada-nativa é um símbolo pouco explorado da biodiversidade brasileira.. Foto: Sítio Ducerrado/Divulgação

Na Amazônia, onde recebe o nome de puruí, a espécie ocupa capoeiras e áreas campestres e produz frutos do tamanho de uma romã, que ficam com casca e polpa de coloração negra quando maduros. Já as variedades típicas do Cerrado costumam apresentar frutos amarelados e mais aromáticos ao amadurecer.

Sabor, usos culinários e uma curiosa alternativa ao café

O sabor é um dos pontos que mais chamam atenção em quem experimenta a fruta pela primeira vez. De sabor adocicado, a polpa pode ser consumida in natura ou utilizada no preparo de doces e, especialmente, de geleia. Comunidades rurais aproveitam ainda um detalhe pouco conhecido da fruta: suas sementes.

Cada fruto guarda entre 10 e 30 sementes, que, torradas e moídas, dão origem a uma bebida usada como substituto do café por populações regionais com menos acesso a recursos. O aproveitamento integral do fruto, polpa e semente, reforça o papel da espécie na segurança alimentar de comunidades do interior do país.

Potencial medicinal ainda em estudo

Assim, além do uso alimentar, a marmelada-nativa desperta interesse científico. Pesquisadores da Universidade Federal da Grande Dourados investigam variedades da espécie sob orientação da professora Maria do Carmo Vieira. O grupo estuda a planta do ponto de vista agronômico, químico e farmacológico, com foco no uso etnofarmacológico das folhas.

Foto: Sítio Ducerrado/Divulgação

Popularmente, as folhas são utilizadas para o controle da hipertensão arterial, da hiperglicemia e por sua atividade antioxidante, efeitos que estudos científicos vêm confirmando. Análises químicas já identificaram compostos como iridoides, saponinas, flavonoides e alcaloides na composição da planta, substâncias associadas às propriedades observadas tanto no conhecimento popular quanto nas pesquisas em laboratório.

A marmelada-nativa segue pouco conhecida fora das regiões onde ocorre naturalmente, mas concentra características que a tornam relevante: alimento, remédio popular e matéria-prima para pesquisa científica. O nome que confunde continua sendo, paradoxalmente, um dos motivos que despertam curiosidade sobre essa fruta genuinamente brasileira.

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